Com as taxas de juros em 13,25%, provavelmente migrando para 13,75% na próxima reunião do Banco Central do Brasil, no dia 3 de agosto, a recomendação de privilegiar a renda fixa pós-fixada nos portfólios locais tornou-se relativamente óbvia. Quando se fala em alocar nessa categoria de investimentos, estamos falando muitas vezes em substituir o chamado risco de mercado, expresso na variação das taxas prefixadas, juros reais, renda variável e câmbio, por exemplo, por risco de crédito.
Segundo os dados da ANBIMA – Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais – a indústria de fundos de renda fixa captou liquidamente cerca de R$ 200 bilhões nos últimos 12 meses, enquanto os fundos de renda variável e multimercados sofreram resgates próximos de R$ 48 bilhões e R$ 85 bilhões, respectivamente. Essa demanda bilionária por ativos de renda fixa aqueceu o mercado de emissões privadas, incentivando empresas e instituições financeiras a captar via emissão de dívidas.
É essa crescente demanda de títulos privados no mercado local que nos preocupa. Diferentemente do que se observa no mercado externo, nossa precificação de ativos de crédito tem se mostrado contra cíclica. Em um mercado onde as bolsas de valores caem lá fora em média 20%, os juros vêm sendo elevados bem acima das médias recentes, a inflação se mantém pressionada, onde já está contratada relevante desaceleração da atividade com risco de recessão, o que se esperaria dos preços dos ativos de crédito? Que eles piorassem, certo? Sim, o mercado high yield americano, o qual engloba as empresas com um pouco mais de risco crédito, viu suas taxas pagas acima das do tesouro americano subirem de 2,8% para quase 6% ao ano em 2022.
No mercado local, essa dinâmica tem sido bem diferente. A demanda por títulos privados tem sido tão grande que na prática não se nota a adequação da remuneração das emissões privadas para um cenário no mínimo mais desafiador. O crescimento da economia tem sido revisado para baixo, diversos setores têm tido margens e lucros pressionados, quando listadas na bolsa, valor de mercado das empresas tem sido corrigido significativamente, tudo isso a despeito de correção equivalente na remuneração de suas emissões de dívidas domésticas.
O que deveríamos esperar das taxas pagas por uma debênture cuja empresa viu seu valor de mercado cair quase 70% e seus títulos emitidos no exterior perderam por volta de 20%? Que tivesse algum tipo de ajuste, certo? Errado. Este é o exemplo da debênture da Natura Cosméticos, que apesar do ajuste dos preços das suas ações e bonds no exterior, não se verificou internamente a alteração de preço das suas debêntures. O exemplo da Natura é um de vários que corroboram com a nossa tese de que a crescente demanda por títulos de renda fixa vem distorcendo o prêmio do risco de crédito das emissões de empresas no mercado doméstico. Hoje, é comum encontrarmos papéis emitidos por companhias no exterior que convertidos para CDI remuneram 3%, às vezes 4%, ao ano a mais quando comparados aos emitidos em reais no mercado local.
Nesse ambiente de grandes incertezas onde os juros provavelmente se manterão altos por mais tempo, a estratégia de crédito privado continuará a ter destaque nos nossos portfólios. Entretanto, os spreads comprimidos por questões técnicas distorcem o preço justo das emissões. Temos sido bastante criteriosos na aprovação de novos nomes, preferindo emissões que incluam algum tipo de colateral ou garantia. Por várias vezes, preferimos ficar de fora de algumas emissões mesmo gostando do risco incorrido, porém discordando da remuneração. As emissões externas nos parecem mais premiadas, desta forma também consideramos a alocação de parte da estratégia de crédito privado nessas operações de forma “hedgeada” para reais. Além de não renunciarmos ao carregamento do CDI, acessaremos um mercado onde as taxas estão mais atrativas e ajustadas à realidade do cenário, diferentemente do que observamos localmente.
O risco de crédito no Brasil é por muitas vezes silencioso em função da menor liquidez desses ativos, e pode surpreender via ajuste repentino da marcação a mercado. Desta forma, recomendamos cautela na alocação por impulso. Nestes casos, a análise da remuneração justa e adequada ao risco tem sido parte tão relevante na nossa análise quanto o próprio escrutínio da capacidade financeira da empresa em honrar o pagamento da dívida.
Até a próxima!
Eduardo Castro
Eduardo Castro é CIO (Chief Investment Officer) na Portofino Multi Family Office.
”Causa e Efeito” é um conteúdo exclusivo Portofino MFO que traz uma visão técnica sobre o que acontece no mundo, na semana e seus reflexos nos mercados financeiros globais.
Recebemos na segunda-feira (11), em nosso escritório em São Paulo, André Portilho, Head de Digital Assets do BTG, para uma oficina com nossos colaboradores sobre criptoativos.
Devido a um uso cada vez maior e ao avanço da tecnologia, principalmente no mercado financeiro, é de suma importância estar atualizado sobre como essa tendência tem afetado e mudado os investimentos. Neste sentido, Portilho deu um overview sobre os modelos de ativos digitais, falando desde criptomoedas e NFTs, até Web 3.0 e multiverso.
Durante o papo, André destacou bastante a importância da tecnologia, explicando que se não tivermos cabeça aberta para entender o processo tecnológico, não conseguiremos compreender que cripto é algo que vai muito além do Bitcoin. “Cripto não é uma moeda. Se criou uma tecnologia para resolver outros problemas”, disse ele.
Por falar na principal criptomoeda do mercado, no Bitcoin, Portilho comentou que ela foi a primeira a ir para o mainstream e a atrair a atenção das pessoas. Na época, ele explicou que tinham os grupos que acreditavam que a criação de Satoshi Nakamoto iria resolver todos os problemas e, do outro lado, os mais céticos.
Além disso, o especialista comentou a respeito do caráter de descentralização dos criptoativos, que possibilita que qualquer pessoa com uma ideia possa programar um token, contribuindo com o processo de inovação. Contudo, ele ponderou que 98% desses projetos não dão em nada, mas os 2% que vingam podem fazer a diferença.
Por fim, o encontro proporcionou diversos insights e aprendizados para a equipe da Portofino, que está sempre em busca de conhecimento para oferecer as melhores soluções aos nossos clientes.
Na manhã desta quinta-feira (30), na nossa sede em São Paulo, realizamos um evento com a presença de Eric Archer, sócio e fundador da Monashees, uma das mais relevantes gestoras de venture capital brasileira, além da presença de 20 clientes e colaboradores da Portofino.
No encontro, Archer apresentou uma análise sobre o mercado de Private Equity e Venture Capital, falou a respeito das teses que mais gosta na atual conjuntura e também comentou os números e atividades que a gestora desempenha desde a fundação, em 2005.
Em sua participação no evento, o fundador da Monashees expôs sobre a disponibilidade de capital internacional. Segundo ele, “a disponibilidade de capital vai diminuir, mas não vai sumir ou desaparecer”. “As melhores empresas daqui vão continuar tendo acesso a esse capital internacional. O capital vai ficar mais escasso para aquelas que ainda estão se provando. Vai ser um período mais difícil para algumas empresas”, completou.
Além disso, ao falar especialmente sobre a América Latina, Archer se mostrou otimista. Apesar desse momento mais complexo e de não ter havido tempo de criar investidores locais, ele “acredita que a América Latina entrou no mapa”.
Os clientes da Portofino Multi Family Office possuem acesso a fundos exclusivos que dão acesso às melhores e mais promissoras startups do mercado. Entre em contato conosco, teremos muito prazer em atendê-los. Acesse: www.pmfo.com.br
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Ser capaz de ver oportunidades nas crises, saber o momento exato de comprar, vender ou segurar suas ações, ter sangue frio, paciência e visão estratégica de longo prazo são algumas das características comuns entre grandes investidores que conseguiram trilhar uma trajetória de sucesso no mercado de capitais ao longo das últimas décadas.
No Brasil, uma das maiores referências quando o assunto é investimento é Luiz Barsi Filho. Aos 83 anos, ele ostenta o título de maior investidor individual da bolsa de valores brasileira, a B3. Dono de um patrimônio avaliado em R$ 2 bilhões somente em ações, o filho de imigrantes espanhóis que teve uma infância humilde no bairro paulistano do Brás e foi engraxate antes de entrar no mercado acionário acredita que a disciplina e a aposta em investimentos de longo prazo são os principais ingredientes de sua receita de sucesso.
O primeiro contato de Barsi com o mundo dos investimentos ocorreu cedo, aos 14 anos, quando ele começou a trabalhar em uma corretora de valores – e logo decidiu investir o que sobrava do salário. Antes de completar 30 anos, preocupado com o futuro da sua aposentadoria, já que avaliava que a previdência pública era insustentável, resolveu desenvolver sua própria estratégia de investimento, uma espécie de “carteira de ações previdenciária”.
O método consiste em comprar papéis de empresas que tenham excelentes projetos e que sejam boas pagadoras de dividendos. Além disso, tem foco em uma carteira menos diversificada em um primeiro momento, concentrando capital em poucas, mas boas companhias. Para Barsi, um dos segredos de investir bem é conhecer a fundo as empresas.
Em uma década, a estratégia garantiu rendimentos suficientes para que ele não precisasse mais trabalhar. E logo ganhou o apelido de “rei dos dividendos”.
Análise fundamentalista
A filosofia adotada por Barsi consiste em uma análise fundamentalista de cada empresa, avaliando o setor de atividade e seu grau de perenidade. O método, que tem como “pai” o inglês Benjamin Graham e é utilizado por muitos investidores de sucesso, consiste em observar a capacidade de geração de caixa da empresa, suas vantagens competitivas e saúde financeira para identificar boas opções de investimento no longo prazo. Graham também foi pioneiro no desenvolvimento da ideia de “value investing”, estratégia de investimento que consiste em encontrar boas ações que estejam subvalorizadas no mercado.
O lendário investidor norte-americano Warren Buffett, um dos homens mais ricos do planeta, com uma fortuna estimada em US$ 111 bilhões de dólares, foi aluno de Benjamin Graham – e também é famoso por utilizar a análise fundamentalista para montar sua carteira de investimentos. Ele é um dos adeptos da técnica “buy and hold”, segundo a qual o investidor permanece por um longo prazo com as ações na carteira. Nas palavras de Bufett, “um investidor não precisa ser esperto, só precisa ser paciente”. Ele também gosta de comprar na baixa e vender na alta.
Por ter utilizado a mesma filosofia que o americano e por também adotar um estilo de vida simples, Barsi também passou a ser chamado de “Warren Buffett brasileiro”. Até hoje, seu portfólio é formado por poucas empresas, todas de setores considerados perenes, como o bancário, o de transmissão e distribuição de energia elétrica e de papel e celulose. São companhias como Banco do Brasil, Klabin e Unipar, algumas na carteira do megainvestidor há mais de três décadas.
Pai de cinco filhos, Barsi, que também trabalha em uma corretora, inspirou pelo menos dois deles a seguir seus passos no mercado financeiro. A mais nova, Louise, de 26 anos, assumiu a missão de ensinar a metodologia de sucesso do pai e é uma das fundadoras da empresa de educação financeira digital Ações Garantem o Futuro. Além de atuar como analista, ela ajuda na gestão do patrimônio familiar. No Instagram, compartilha dicas de investimentos e mostra um pouco da sua vida de sucesso. Assim como o pai, seu primeiro investimento foi aos 14 anos, quando recebeu uma mesada de R$ 300 em ações da Ultrapar. Desde lá, não parou mais de investir.
“A gente se considera empreendedor de negócios que já são maduros”, diz Louise à Forbes. “Mas, em vez de ter nosso capital, ir lá trabalhar, contratar gente, pagar impostos, eu pego meu capital e invisto em empresas que me dão essa oportunidade na bolsa de valores. É praticamente a mesma coisa, mas tenho um décimo do trabalho”, completa. Formada em economia e contabilidade, ela afirma que trabalha duro uma ou duas vezes por ano, quando precisa estudar as novas empresas.
Na avaliação de Louise, o segredo para ver resultado nos investimentos é ter constância nas aplicações. “É preciso ter muitas ações da mesma companhia para poder ganhar musculatura na renda e ver o efeito dos juros compostos. Eu mesma só fui diversificando os papéis ao longo do tempo”, explica. A jovem concentra sua carteira no que chama de BESST: bancos, energia, saneamento, seguros e telecomunicações, que, para ela, são os melhores setores que conseguem pagar dividendos de forma sustentável no longo prazo.
“Uma das grandes lições que meu pai me deu durante todos esses anos foi que só existem dois tipos de empresas que não pagam dividendos. As que não podem e as que não querem naquele momento”, diz. Nesse último grupo ela tem cerca de 10% de sua carteira. “Essas empresas não podem pagar o dividendo agora porque estão investindo, por exemplo, mas no futuro pagarão. Isso aconteceu lá atrás com a Taurus e com a Unipar (que já está há 15 anos na carteira do meu pai) e que são bem-sucedidas.”
Amante da renda variável, Louise confessa ter algo do seu patrimônio em renda fixa, mas não considera isso como um investimento. “Ela serve para pelo menos preservar o valor, te dar uma liquidez de curtíssimo prazo e previsibilidade. Caíram os dividendos e não há nenhuma oportunidade para colocar no mercado? Põe na renda fixa e faz essa reserva de oportunidade, de emergência”, ensina a jovem professora.
Outro filho do megainvestidor, Luiz Barsi Neto é assessor de investimentos e chegou a gerir a carteira do pai entre 2004 e 2009. Hoje ele assessora clientes usando a estratégia do pai, mas enfatiza que é preciso aperfeiçoar sempre as técnicas de investimento focado em dividendos.
Quando a pandemia de Covid-19 começou, muitos clientes de renda variável, vendo os papéis derretendo dia a dia, ligaram pedindo para vender tudo. “Mostramos que era preciso ter a visão de longo prazo, que as crises são passageiras e têm hora para acabar – assim como aconteceu em 2008”, lembra.
A estratégia foi proteger a carteira e comprar mais, já que muitas ações de boas empresas estavam em queda. “A maioria dos clientes conseguiu seguir essa avaliação, comprando bons projetos de investimentos, em “small caps” [ações das empresas com menor capitalização na bolsa]. Mas não foi fácil, afinal alguns papéis desvalorizaram 50% a 70% e os clientes estavam com medo de que tudo desmoronasse”, conta Barsi Neto.
A queda generalizada nas bolsas de todo o mundo diante da emergência sanitária foi um verdadeiro teste para investidores que pensavam suportar riscos e perdas. “Muitos se apavoraram. No fim, o perfil para renda variável é aquilo que você investe e consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Não é conservador, moderado ou agressivo”, explica.
Apesar de ter seus investimentos todos na bolsa, como o pai, Barsi Neto avalia que a diversificação também é um caminho interessante. “Nesse contexto de pandemia, guerra na Ucrânia e os juros aumentando em todos os países, a renda fixa passa a ser atrativa para o investidor que não suporta o risco. Para os que suportam, a renda variável sempre vai ter muita oportunidade para o médio e o longo prazo. Só exige paciência”, reforça.
Há mais de 50 anos no mercado de capitais, o megainvestidor gaúcho Lírio Parisotto, dono de uma fortuna estimada atualmente em R$11,2 bilhões, diz já estar acostumado com turbulências e crises. “O mercado tem momentos de estresse e euforia. O tal do senhor mercado precisaria fazer um pouco de terapia, porque ele é bem descompensado. Mas, no final desses ciclos de altas e baixas, o que sobra são as empresas com os seus fundamentos”, explica ele à Forbes.
Parisotto, que construiu sua fortuna ao investir os lucros de uma empresa de fitas de vídeo e áudio na bolsa de valores, também possui um perfil parecido com o do amigo Barsi. Seu portfólio abrange bancos, empresas de eletricidade e mineração e siderúrgicas. O megainvestidor evita setores que possuem menos proteção, como aviação e comércio.
Para quem está começando a investir, ele dá quatro conselhos. O primeiro é não ter medo das oscilações do mercado. “Tampouco se deve ficar muito eufórico. Faça o dever de casa e avalie bem a empresa de que você vai ser sócio”, diz. O segundo é não investir o dinheiro que você tem data para usar. Terceiro: não se estressar. “Se a renda variável perturba a pessoa, é melhor deixar o dinheiro em qualquer outro investimento.” E, por fim, nunca comprar uma ação com base em “dicas”.
Parisotto lamenta que no Brasil os investidores sejam tão focados no curto prazo. Uma prática que, segundo ele, só é vantajosa para a B3 e as corretoras. “A B3 movimenta, em média, R$ 30 bilhões por dia. Em 20 dias úteis do mês, a bolsa negocia R$ 600 bilhões. Em dois meses, R$ 1,2 trilhão. O mercado inteiro vale R$4 trilhões, e 30% equivalem a cerca de R$ 1,2 trilhão, que é o ‘free float’ das empresas. Quem é que sempre ganha? A B3, com as taxas, e as corretoras”, explica. “Infelizmente, a cada dois meses, em média, todas as ações trocam de mão. Você não pode ser feliz com essa necessidade de trocar de posição. Quem está investindo não está fazendo isso com segurança”, completa.
Preço x valor
Investidores fundamentalistas como Buffett, Barsi e Parisotto fazem uma distinção muito forte entre o preço e o valor da empresa. Para eles, o preço é o que você compra, quanto você paga numa ação. Mas o que você leva para casa, no final das contas, é o valor. “O foco deles é encontrar empresas que têm uma distorção grande entre o que é preço e o que é valor, sempre buscando uma empresa que tem o valor bem maior que o preço. Buffett segue bem focado nas de ‘value’, que geralmente são empresas consolidadas no setor em que atuam, que já entregam resultado há tempos, como a Coca-Cola e Apple, por exemplo”, avalia Lucas Serra. analista da Toro Investimentos.
“Ele realiza os movimentos através de sua empresa de participações Berkshire Hathaway, que controla um valor muito grande. Então não pode se dar ao luxo de entrar em papéis que sejam menores. Se a Berkshire entrar num papel menor, ela desperta muita atenção – e é exatamente o que ele não quer”, completa Serra.
Growth investor
Dentro da análise fundamentalista que norteia grande parte dos investidores também há o “growth investing”, que consiste em analisar as companhias, geralmente menores, mas com potencial de crescimento – e não aquelas que já estão ou estiveram consolidadas em algum momento. Peter Lynch, o principal expoente dessa filosofia, define a estratégia como GARP (“growth at a reasonable price” ou crescimento a um preço razoável em tradução livre). O “growth investor” busca empresas capazes de apresentar grandes multiplicações nos seus resultados ao longo dos anos, já que as ações acompanham os lucros dessas empresas.
A própria Berkshire, gerida por Buffett, resolveu aportar US$ 500 milhões no Nubank, o maior banco digital da América Latina, antes da realização do IPO da instituição financeira. “O que decerta forma pode ser considerado um investimento em ‘growth’. Mas foi apenas uma pequena porcentagem do capital deles para dar aquela turbinada na rentabilidade da empresa, sempre com o pensamento no longo prazo”, afirma Serra.
Especular e antecipar
Mas nem só de análise fundamentalista vive o mercado. George Soros, um dos mais renomados investidores do mundo, atua de forma oposta à de Buffett e opta por assumir grandes riscos com aplicações utilizando grande volume de alavancagem. Soros ficou conhecido como “o homem que quebrou o Banco da Inglaterra” quando ganhou cerca de 1 bilhão de libras esterlinas apostando contra a moeda corrente do Reino Unido.
Nascido em Budapeste, ele se mudou para a Inglaterra aos 17 anos, onde fez faculdade e pós-graduação na London School of Economics. Em 1956, emigrou para os EUA, onde fundou seu próprio fundo de investimentos, o Soros Management – que depois se tornaria o Fundo Quantum, reconhecido por investimentos agressivos e por seu alto retorno financeiro. Mesmo tendo um perfil bastante ousado, George Soros mantém uma carteira de investimentos diversificada e evita apostas únicas e concentradas em um negócio apenas.
O método Soros de investir também é focado no processo de especular no longo prazo e antecipar tendências. Essas apostas nem sempre são bem-sucedidas. Em 1994, ele perdeu mais de US$ 400 milhões ao apostar na queda do iene japonês.
Arbitragem
Há também os investidores que focam na operação de arbitragem. O método consiste em saber aproveitar a discrepância de valores entre ativos idênticos negociados em mercados diferentes. Essas diferenças tendem a durar pouco tempo, sendo a velocidade fundamental para ganhar nesse tipo de operação. A maioria é conduzida com ajuda de robôs.
Eduardo Castro, CIO da Portofino Multi Family Office, gestora de patrimônio com R$12,5 bilhões de ativos sob gestão no Brasil e no exterior, avalia que, de forma geral, os megainvestidores são fundamentalistas. Ele opina que, em tempos turbulentos de crises, guerra e crise sanitária, os investidores procuram diversificar, evitando colocar todos os ovos na mesma cesta. “A Bolsa dos EUA, por exemplo, deve ter crescido cerca de 25% ao ano nos últimos dois anos, e, em 2022, está caindo quase 10%. A previsibilidade dessa queda era baixa. E está acontecendo pelo processo inflacionário que começou na pandemia e foi exacerbado pela guerra na Ucrânia”, afirma Castro. Outro subitem da diversificação é a geografia. “O grande investidor tem a possibilidade de separar o portfólio doméstico do offshore, diversificando a moeda”.
Para ter êxito nos investimentos, explica o especialista, primeiro é preciso determinar o que o investidor precisa de liquidez imediata e aquilo que não. “Se você consegue colocar parte do seu portfólio no longo prazo, você consegue acessar determinadas classes de ativos que os grandes investidores acessam. Para além das ações da bolsa, você consegue alocar recursos em venture capital, private equity, crédito estruturado, participando indiretamente como sócio de uma determinada empresa e ajudando a estruturá-la.”
Afinal, onde investir?
Não há fórmula mágica para descobrir o melhor investimento para o seu perfil nem para calcular o potencial das empresas, mas algumas lições de grandes lendas do mercado podem ajudar a trilhar um caminho de êxito: focar no longo prazo, desenhar uma meta clara, estudar bem a empresa na qual está investindo seu dinheiro e controlar as emoções nos vários momentos de turbulência que certamente virão.
Assim, quem sabe, daqui a alguns anos esta reportagem pode ser sobre você.
Descrevemos o recente comportamento dos mercados como sendo bipolar. O sentimento dos agentes tem oscilado entre a torcida por um pouso suave das economias à medida que os bancos centrais elevam os juros na tentativa de conter o atual surto inflacionário e o medo de que essa elevação produza uma recessão. A divulgação dos dados de inflação, ações e comunicação, principalmente do banco central americano, ditam o rumo desse movimento pendular.
Há pouco mais de duas semanas, foi divulgada a inflação de maio nos Estados Unidos. Mais uma vez surpreendendo os analistas, a inflação dos últimos 12 meses chegou ao seu maior nível dos últimos 40 anos. Desde então, os investidores entraram no modo redução de risco, acarretando significativo ajuste da maioria dos ativos financeiros mundiais. O mercado de ações americano, por exemplo, viu evaporar por volta de 3 trilhões de dólares no valor das companhias. Colocando em perspectiva, esse valor é quase cinco vezes o valor de mercado de todas as empresas que integram o IBOVESPA.
Por outro lado, alguns indicadores demonstram que a magnitude do ajuste observado até agora não é desprezível. Hoje, apenas 18% das ações que compõem o S&P500 estão acima das suas médias de preços dos últimos 12 meses. Dessas, a maioria concentra-se no setor de energia que, diga-se de passagem, é o único dos 11 setores que compõem o índice que se apresenta com resultado positivo em 2022.
É creditado a Warren Buffett, um dos mais bem sucedidos investidores da história contemporânea do mercado financeiro, a máxima de que os investidores deveriam ser cautelosos quando os outros forem gananciosos e serem oportunistas quando os outros estiverem em pânico. Um índice qualitativo bastante utilizado para medir a razão entre otimistas e pessimistas em relação ao desempenho das bolsas americanas, encontra-se no segundo pior nível desde 1991, só perdendo para o ápice da crise financeira internacional de 2008/2009.
É verdade, porém, que do ponto de vista do preço é difícil afirmar que estamos diante de uma barganha. Se tomarmos o múltiplo Preço / Lucro como referência, os níveis atuais ainda apontam para menos de um desvio padrão da média dos últimos 10 anos. Neste período, ainda observamos quase 30% dos dias mostrando o S&P500 em níveis mais baratos do que observamos hoje. Sim, está barato, mas não se pode descartar que fique ainda mais.
Na renda fixa, a análise chega a conclusões semelhantes. O índice da Bloomberg que reproduz uma carteira de ativos de alta qualidade de crédito, incluindo títulos emitidos pelo tesouro americano, tem o pior desempenho dos últimos 30 anos para o primeiro semestre. Os títulos corporativos que compõem essa carteira já pagam taxas acima dos níveis observados no pior momento da pandemia.
Caso a economia americana caminhe de fato para uma recessão, é de se esperar uma correção adicional dos mercados. Não tem sido incomum conviver com projeções de mais de 30% de probabilidade para este cenário de desaceleração nos próximos 18 meses. Um atenuante, é a constatação de que o FED hoje corrobora com o esperado pelo mercado. As taxas observadas na curva de juros americana são bem semelhantes ao cenário sugerido pelos diretores do FED. Há apenas 3 meses, os mercados precificavam um nível de juros muito superior ao sinalizado pelo banco central americano.
O mercado, na prática, é minimalista na sua análise. Apesar de os preços dos ativos serem impactados por diversos fatores, os gestores e estrategistas concentram sua atenção para aqueles de maior relevância e, agora, este tema principal é a política monetária americana. Mencionamos este fato só para lembrar que nossa eleição presidencial está apenas aquecendo os motores e certamente impactará a volatilidade do mercado local nos próximos meses. Mas, isso será assunto para outra conversa.
Dissemos em nossa última carta que as nossas carteiras já vinham carregando menor risco, de forma geral, e nos mantemos assim. Mas, atentos aos ensinamentos de Warren Buffett, estamos monitorando o pânico dos mercados para não perder o que poderá vir a ser a maior oportunidade dos últimos anos.
Até a próxima!
Eduardo Castro
Eduardo Castro é CIO (Chief Investment Officer) na Portofino Multi Family Office.
”Causa e Efeito” é um conteúdo exclusivo Portofino MFO que traz uma visão técnica sobre o que acontece no mundo, na semana e seus reflexos nos mercados financeiros globais.
No jantar realizado na quinta-feira (9), em evento promovido pela Esfera Brasil, Alexandre Padilha, Deputado Federal (PT-SP) e ex-ministro da saúde da Dilma e Ministro chefe da Secretaria de Relações Institucionais do Brasil do Lula, debateu com empresários sua visão sobre as eleições deste ano, teto de gastos, privatização da Eletrobras e mais.
Um novo governo Lula
Padilha começou o jantar falando muito sobre como seria caso Lula fosse eleito e disse que o diálogo é a principal ferramenta, que, inclusive, precisa ser retomada. Neste sentido, ele comentou que está procurando união no nosso país e acredita que o Brasil pode ser a plataforma para o futuro.
Mais especificamente a respeito de uma possível volta de Lula à presidência, Padilha brincou ao dizer que o candidato “não é um ET”, ou seja, todos já o conhecem. Ele destacou que o ex-presidente governou o país por oito anos e durante esse período, segundo o deputado, houve crescimento econômico, diminuição da desigualdade e responsabilidade fiscal.
União Lula-Alckmin
O político opinou que os dois têm histórias divergentes, mas perceberam a importância de se unirem para ajudar o Brasil. “Grande oportunidade de juntar o que o PSDB e o PT têm de melhor. Vamos reerguer o Brasil juntando todo mundo”, afirmou.
Quando perguntado sobre o que poderia ser feito de diferente em relação ao governo da Dilma, Padilha foi sucinto ao dizer que a chapa é o Lula, não a ex-presidente.
O ex-ministro elogiou os empresários e empresas que ganharam desempenho e governança, alinhados com a capacidade de inovar nos últimos anos. Ele disse ser muito importante reduzir encargos para os mais necessitados e empresários que geram empregos. Ademais, justificou que para grandes fortunas que não têm geração de empregos, é necessário compensar para ajudar no desenvolvimento e crescimento do Brasil.
Para mostrar como funcionaria o sistema, Padilha tomou como exemplo a Alemanha, onde todos têm o direito de gerar fortunas, mas, quando morrem, mais de 40% fica para o Estado. O motivo, conforme ele explicou, é que a pessoa cresceu com a ajuda do Estado, por isso tem que devolver uma parte para auxiliar na divisão das pessoas que mais precisam.
Privatização da Eletrobras
Em um dos assuntos mais debatidos atualmente, o deputado demonstrou que não concorda com o processo de privatização e que os investidores da empresa estão dando um tiro no escuro.
Ele ressaltou que sem a estatal não haveria luz para todos, sendo esse o maior medo dele. Para ele, é preciso que existam mecanismos que possam dar garantias de acesso básico à energia no Brasil. Ele também citou a questão da desestatização da Petrobras, que não vai ter proposta e que, para ele, a ideia seria criar fundos garantidores da mesma forma que todo mundo está fazendo para ter subsídios em épocas como essa.
Teto de gastos
Outro tema que também está em muita discussão é o teto de gastos, e, novamente, Padilha voltou a destacar a importância do diálogo. Ele relembrou que o Henrique Meirelles, na época em que mandou o teto de gastos para aprovação, colocou uma previsão de revisão em 2026.
Apesar de concordar que após a pandemia e a guerra o teto pode ser revisto em 2023, ele destacou ser muito importante o país ter alguma âncora fiscal. Contudo, o deputado não deixou passar a oportunidade para criticar o atual governo nessa questão, dizendo que nos últimos quatro anos o teto não foi respeitado.
Reforma trabalhista e administrativa
Ele falou que o Lula nunca disse em revogar a reforma trabalhista, mas, sim, revisar. “Eu quero abrir uma mesa de negociação de governo, empresários e trabalhadores”, disse ele justificando que a pandemia mudou muitas coisas, como, por exemplo, o trabalho home office.
“Vincular orçamentos em órgãos públicos pode ser errado, temos que vincular metas numa possível reforma administrativa, mas precisamos de reforma tributária simplificada”, explicou Padilha.
Banco central, salário mínimo e pobreza
O deputado abordou que o aumento real do salário mínimo “com certeza” vai acontecer e disse que o governo atual foi o primeiro da história recente que não teve um aumento real (PIB+Inflação).
No que diz respeito à autonomia do Banco Central, ele afirmou que ninguém vai mexer nessa questão. Relembrou que em 2002 uma das principais perguntas era sobre quem seria o presidente do Banco Central, porém, neste ano, essa questão já está respondida.
Por fim, Padilha mencionou que o principal fiador da credibilidade do governo do PT é o próprio Lula. “Ele não vai dormir até os 33 milhões de pessoas passando fome diminuir”, finalizou.
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Esta é uma iniciativa Portofino Multi Family Office e EsferaBR com o propósito de fomentar o diálogo entre políticos e empresários brasileiros. Todas as opiniões aqui apresentadas são dos participantes do evento. O nosso posicionamento nesta iniciativa é o de ouvir todos os lados, neutro e não partidário.