As empresas familiares são parte importante da economia mundial e representam a maioria das empresas no capitalismo.
Enquanto possuem muitas vantagens, como a lealdade, a paixão e a dedicação, também enfrentam desafios exclusivos que podem ameaçar sua continuidade e sucesso.
Desde conflitos geracionais até questões relacionadas à sucessão, a gestão de uma empresa familiar pode ser uma tarefa desafiadora.
No entanto, ao estarem cientes dos desafios e terem planos em vigor para evitá-los, as empresas familiares podem prosperar e passar de geração em geração.
Neste texto, vamos explorar os desafios das empresas familiares mais comuns e como evitá-los. Boa leitura!
O que é uma empresa familiar?
Podemos definir empresa familiar em termos simples como uma organização que é gerida e possuída por membros da mesma família.
No caso das empresas familiares, a propriedade é transmitida de geração em geração e as decisões de negócios são tomadas pela família, ao invés de terceiros sem relação de parentesco ou investidores externos.
Ou seja, a dinâmica das empresas familiares é completamente diferente das organizações tradicionais e pode ser muito mais complexa, pois combina elementos de relacionamentos pessoais e profissionais.
No entanto, muitas empresas familiares têm uma longa história de sucesso e são consideradas como algumas das mais estabelecidas e bem-sucedidas do mundo.
Veja a seguir alguns exemplos:
Walmart – A maior rede de varejo do mundo, fundada por Sam Walton em 1962;
Ford Motor Company – Fundada por Henry Ford em 1903, a Ford é uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo;
Mars, Inc. – Empresa de alimentos proprietária de algumas das marcas mais populares do mundo, incluindo M&M’s, Snickers, Twix e os alimentos para animais de estimação Pedigree e Whiskas;
Samsung Group – Conglomerado sul-coreano, fundado por Lee Byung-chull em 1938.
Cargill – Empresa de commodities agrícolas e alimentos, fundada por William W. Cargill em 1865.
Dell Technologies – Empresa de tecnologia, fundada por Michael Dell em 1984;
Richemont – Empresa de luxo, fundada por Johann Rupert em 1988;
Koch Industries – Empresa de energia e produtos químicos, fundada por Fred C. Koch em 1940.
As empresas familiares apresentam diversas singularidades em relação aos negócios-não familiares, incluindo:
Proprietários dedicados: membros da família que dirigem uma empresa familiar tendem a ter uma dedicação a longo prazo ao negócio e a seus funcionários mais forte, ou seja, o compromisso com o sucesso da empresa no longo prazo é maior;
História de sucesso: como vimos, muitas empresas familiares têm histórias de sucesso e tradição, o que pode fornecer uma base sólida para atingir a estabilidade ao longo dos anos;
Flexibilidade: empresas familiares podem ser mais flexíveis do que empresas não familiares, pois o poder de decisão é interno, então não precisam se preocupar com as demandas de investidores externos;
Comunicação eficiente: o contato direto entre os membros da família pode ser mais eficiente do que a comunicação entre funcionários e gerentes em empresas não familiares;
Decisões rápidas: devido à natureza íntima das relações familiares, as decisões podem ser tomadas rapidamente, sem a necessidade de consultar comitê externos;
Preservação da identidade ao longo dos anos: empresas familiares tendem a ter uma cultura e valores únicos, que são transmitidos de geração em geração, algo que pode ajudar a preservar a identidade e a integridade da empresa ao longo do tempo;
Desafios das empresas familiares: entenda
Agora veja os principais desafios das empresas familiares:
Sucessão nas empresas familiares
Uma das questões comuns enfrentadas pelas empresas familiares no planejamento da sucessão do negócio inclui a escolha do sucessor, que pode acarretar diversos conflitos internos entre membros da família que têm visões divergentes sobre a direção da empresa no futuro.
Outro fator que pode representar um desafio são os diferentes níveis de qualificação. Pode acontecer de alguns membros da família, possíveis sucessores, não terem as habilidades ou experiência necessárias para administrar a empresa de maneira eficiente.
A transição também pode ser complicada, especialmente quando o antigo líder ainda está envolvido na empresa e tem dificuldade em “abrir mão” do controle.
Questões financeiras, como a divisão das ações ou cotas da empresa entre os membros da família, ou o pagamento de impostos sobre a transmissão das ações em casos de falecimento também podem gerar desafios para as famílias.
Divergências entre gerações
Os conflitos geracionais também podem representar um grande desafio para empresas familiares, pois envolvem diferenças de opinião e prioridades entre diferentes gerações.
Membros da família de gerações diferentes podem ter visões diferentes sobre a direção que a empresa deve tomar, o que pode levar a conflitos.
Além disso, membros da família de gerações mais antigas podem ter estilos de liderança tradicionais e menos flexíveis, o que pode levar a desentendimentos e conflitos.
Por fim, a diferença de idades pode levar a uma falta de comunicação clara e aberta entre membros da família, levando a mal-entendidos e conflitos.
Disputas de poder
As disputas de poder podem ser um grande desafio para as empresas familiares, pois envolvem questões de autoridade, responsabilidade e influência.
Elas podem atrapalhar questões de liderança na empresa, afetando as decisões estratégicas e comprometendo o funcionamento da empresa.
Disputas de poder também podem surgir quando os membros da família têm expectativas diferentes sobre a distribuição de lucros da empresa, levando a mais desentendimentos e até mesmo à ruptura de certos relacionamentos.
Confusão entre questões familiares e da empresa familiar
Em geral, um dos problemas mais sérios que as empresas familiares enfrentam é a confusão entre questões familiares e questões administrativas, relacionadas ao negócio da família.
Conflitos podem surgir quando os parentes desempenham papéis diferentes na empresa, como líderes ou funcionários, ou quando eles têm diferentes expectativas sobre o sucesso da empresa ou quando misturam a vida familiar com a empresarial.
Também é inegável a dificuldade de segregar os assuntos pessoais dos assuntos da empresa. Muitas vezes, além de a família conviver no negócio, há o convívio social familiar no tempo livre, aos finais de semana, por exemplo.
São necessárias disciplina e organização de todos os membros envolvidos para que as questões relacionadas ao negócio não sejam levadas para o almoço de domingo e para que eventuais conflitos pessoais não causem prejuízos à empresa familiar.
Adaptação à novas tecnologias e inovação
Adaptar-se às novas tecnologias e inovar podem ser desafios para as empresas familiares por vários motivos, incluindo:
Mentalidade conservadora: algumas empresas podem ter familiares em cargos decisivos que têm uma mentalidade conservadora e resistente às mudanças, o que pode tornar difícil a implementação de novas tecnologias e de inovação;
Cultura organizacional: a cultura organizacional de uma empresa familiar pode ser resistente à mudança e à adoção de novas tecnologias, o que pode tornar difícil a implementação de novas soluções quando necessário;
Competência técnica: alguns membros da família podem não ter a competência técnica necessária para compreender e implementar novas tecnologias e soluções inovadoras, o que pode atrasar a entrada da empresa em algum novo mercado, por exemplo.
Empresas familiares enfrentam desafios únicos relacionados à sucessão. Conflitos geracionais, disputas de poder, confusão entre questões familiares e administrativas, adaptação às novas tecnologias e inovação são só alguns deles.
No entanto, é possível se planejar e adotar medidas para que as empresas familiares possam prosperar e passar de geração em geração.
A Portofino Multi Family Office, por exemplo, oferece um planejamento sucessório e financeiro completo para ajudar as empresas familiares em suas questões sucessórias e administrativas.
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Nesta quarta-feira (15), tivemos o último dia do CEO Conference Brasil 2023, evento promovido pelo BTG Pactual. Desta vez, Fernando Haddad, Arthur Lira e os governadores dos estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul foram algumas das figuras importantes do cenário político e econômico brasileiro que marcaram presença.
Fernando Haddad anunciou que antecipou a proposta de uma nova âncora fiscal para março;
Haddad falou sobre boa relação com o Banco Central;
Ratinho Jr. destacou a importância da nova geração na política;
André Jakurski, Luis Stuhlberger e Rogério Xavier falaram sobre mexer ou não na meta da inflação;
Flávio Dino comentou sobre uma possível CPI acerca dos atos do dia 8 de janeiro;
Arthur Lira descartou qualquer possibilidade de mudança na independência do Banco Central;
Mansueto Almeida criticou o debate sobre a meta da inflação.
Leia abaixo, com maiores detalhes, como foi o segundo dia do CEO Conference.
Top Gestoras do Mercado
Estava programado para o ministro Fernando Haddad ser o primeiro entrevistado do dia, mas os painéis foram invertidos e André Jakurski, sócio-fundador da JGP, Luis Stuhlberger, sócio-fundador da Verde Asset, e Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, abriram o evento.
Os três convidados passaram por uma análise macroeconômica, debatendo sobre como enxergam o momento atual e as perspectivas no cenário internacional até chegar ao Brasil. O tema principal, como em vários painéis do primeiro dia, se deu sobre a discussão entre Banco Central e governo.
O assunto gerou certo consenso entre os entrevistados. Xavier foi o primeiro a falar, e de forma contundente criticou a não revisão da meta de inflação e os juros. Ele disse que não entende quais os motivos que travam uma possível revisão.
O gestor destacou em sua participação que, desde 1999, o Brasil só conseguiu atingir a inflação de 3% ao ano, dentro da meta, uma única vez e ressaltou que na gestão de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, a inflação ficou em média a 6%.
“Aquele cenário de 2020, quando definimos a meta de hoje, não se realizou. Se a gente tem uma reunião todo ano para reavaliar, não entendo a razão disto ser um dogma tão grande de corrigir. Por que estamos perseguindo um objetivo que está inalcançável? A meta definida há dois anos está errada”, opinou. Jakurski seguiu na mesma linha de Xavier e complementou sobre a importância de definir uma regra fiscal.
Stuhlberger, por sua vez, explorou sobre as decisões políticas e falta de visão de longo prazo destes, que adotam medidas visando apenas seus próprios interesses, aspas que foram aplaudidas ao fim. “Nos dois últimos anos do governo Bolsonaro, acho que houve uma involução, com políticas que servem para o curto prazo, usadas para interesses políticos, como a PEC Kamikaze. Isso vale para o Bolsonaro e Lula. Que a gente tenha presidentes e ministros que sejam estadistas e pensem no Brasil no longo prazo. O estrago de políticas erradas no longo prazo é muito grande”.
Perspectiva Econômica Brasileira
No painel mais aguardado do segundo dia, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi questionado sobre diversos assuntos que mexem com os ânimos das pessoas, como o novo arcabouço fiscal, caso Americanas e até mesmo sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Haddad declarou que depois de uma conversa com Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento, decidiu antecipar a proposta de uma nova âncora fiscal para março.
“Nós vamos em março, provavelmente, anunciar o que entendemos que seja a regra fiscal adequada para o país. O Congresso estabeleceu agosto, tínhamos puxado para abril devido à LDO, mas a Simone ponderou, com razão, e Alckmin também, que para mandar para o Congresso junto com a LDO era bom a gente ter um período de discussão, porque não tenho a pretensão de ser o dono da verdade.”.
Durante o evento, o ministro teceu críticas ao ex-presidente sobre não saber perder e fazer oposição sem risco. “É muito fácil pensar nas grandes personalidades do Brasil e saber quem se portou de maneira adequada e quem não”. Além disso, também comentou sobre a herança fiscal deixada pelo antigo governo, relatando as medidas consideradas por ele eleitoreiras e com custo expressivo às contas públicas.
O ministro falou sobre as polêmicas acerca da meta da inflação e o “braço de ferro” do governo com o Banco Central. Ele afirmou que todo dia a Fazenda conversa com o Banco Central e a “comunicação nunca deixou de existir e nunca deixará”. Haddad expôs sua opinião em relação ao caso das Americanas, o qual ele disse que gerou “um estresse”. “Um cara que dá um tombo de 0,5% do PIB, com 16 mil credores. E nós estamos aguardando um pronunciamento até agora”, finalizou.
O Papel do Ministério da Justiça
O ministro da Justiça, Flávio Dino, comentou sobre os atos do dia 8 de janeiro. Para ele, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre os acontecimentos poderia se tornar uma distração para o governo Lula e tirar as atenções da Reforma Tributária.
“Talvez resultasse na perda de foco do principal que é a Reforma Tributária, estratégica para o momento que o Brasil vive”. O ministro ainda destacou que as condições institucionais estão melhores, mas deseja que melhorem ainda mais.
Dino também falou sobre o decreto de armas e pontuou que o armamentismo sustentou quadrilhas e organizações criminosas.
Agenda Política Brasileira
Outro nome importante do cenário político que marcou presença no evento foi o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Assim como grande parte das personalidades que passaram pelo palco, Lira foi mais indagado sobre Banco Central versus governo e afirmou que não vê nenhuma possibilidade de mudança na independência do Banco Central, ressaltando a importância da independência da autarquia e que Lula e Campos Neto são duas pessoas que vão saber dialogar.
Lira também não ficou de fora da pauta da Americanas e comentou o caso. “O que aconteceu foi muito grave. Esse assunto deve e será tratado tanto pelos órgãos de controle do sistema financeiro quanto do Congresso Nacional”.
O presidente da Câmara mencionou haver um acordo para que o novo arcabouço fiscal seja moderado e que o texto radical para um lado ou para outro não terá apoio”.
Governos Estaduais: Desafios dos Novos Ciclos
Ratinho Jr, governador do Paraná, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, participaram do painel que debateu a relação com o governo Lula, polarização e reforma tributária.
O governador do Paraná se mostrou cético quanto à reforma, disse que não acredita que irá avançar. Dentre as justificativas para sua opinião, ele comentou que “não temos um ambiente econômico saudável”. Na sequência, ele afirmou que acha que é possível avançar com uma simplificação dos tributos federais, dando mais dinâmica para o setor privado.
Tarcísio partiu para o campo das privatizações, explicou que esse será seu contraponto em relação ao governo federal e falou que a grande privatização é a da Sabesp, que deve seguir um modelo parecido com o da Eletrobras.
Governador reeleito do RS, Leite mencionou o fato do estado ser muito polarizado, as privatizações que realizou na sua primeira passagem e destacou a importância de um bom ambiente de diálogo, mas sem deixar que tenha divergências com o governo federal.
Por fim, Ratinho Jr. deu um breve discurso sobre o Brasil ser um país escasso de lideranças, não só na política. Destacou o fato do tempo que o Lula está como figura de destaque na política, relacionando com a necessidade de uma nova geração, “não de idade, mas de tese, projeto e de caráter”. “Essa nova geração tem a obrigação de assumir o Brasil. De estimular novas lideranças e apresentar novos caminhos para o país. Temos que inspirar novas lideranças a dar as caras. Não podemos ser um país dependente de uma ou duas figuras”, complementou.
Os Desafios do Ajuste Fiscal e da Redução da Inflação
Encerrando o CEO Conference de 2023, Eduardo Loyo, sócio BTG Pactual, Mansueto Almeida, economista-chefe BTG Pactual, e Tiago Berriel, estrategista-chefe BTG Pactual Asset Management, falaram dentre os assuntos sobre a mudança, ou não, da meta da inflação.
“O mero fato de afrouxar as metas é lido como uma revelação das suas preferências como Banco Central de tolerar inflações mais altas. Mostra que tem dificuldades de trazer a inflação para onde ela deveria estar”, explicou Loyo.
Mansueto Almeida seguiu pelo mesmo caminho e, na opinião dele, “o grande debate no Brasil hoje não deveria ser a meta da inflação”. Ele explica que o preço dos ativos piorou muito desde o término das eleições, não pelo banco central, mas, sim, pelas mensagens sobre o ajuste fiscal. “Eventualmente, lá na frente, quando a inflação estiver convergindo para a meta, tivermos um plano fiscal que mostre que a trajetória da dívida não será explosiva, a gente pode debater a eficiência do sistema de metas. Agora não é o momento”.
Ele finalizou comentando que o mundo está querendo acreditar no Brasil, mas internamente não estamos dando a mensagem adequada com clareza. Olhando para frente, temos um cenário de incerteza agravado pela mudança de meta e discussão sobre a autonomia do Banco Central.
Este conteúdo é produzido pela PORTOFINO MULTI FAMILY OFFICE e fomenta o diálogo sobre a política e o empresariado brasileiro. A nossa opinião é neutra e não é partidária.
Nesta terça-feira (14), aconteceu o primeiro dia do CEO Conference Brasil 2023, evento promovido pelo BTG Pactual, que contou com a presença de diversas figuras importantes do cenário político e econômico brasileiro, como o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Bernard Appy, Secretário Especial da Reforma Tributária, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, entre outros.
O CEO Conference 2023 começou com André Esteves, Chairman e Sócio Sênior do BTG Pactual, como o primeiro entrevistado. O tópico de início de conversa foi sobre o novo governo e as questões da política fiscal, da qual ele relacionou que quanto mais saudável, menores os juros. “Acho que o presidente tem uma natural ansiedade de rapidamente atender a população que ele enxerga como seu objetivo de governo, algo que acho louvável e respeitável. O risco, entretanto, é essa ansiedade buscar um atalho. O atalho não vai levar a lugar nenhum”, disse Esteves.
A “guerra fria” também foi tema no painel. O assunto que vem dominando as manchetes nas últimas semanas foi abordado em outras entrevistas, mas Esteves, perguntado sobre o assunto, disse que devemos torcer para o Brasil. Ele ressaltou que o presidente do BC, Roberto Campos Neto, está fazendo um trabalho excepcional e opinou: “Dizer que ele está sabotando algo é ingenuidade. Está claro que performa um trabalho técnico. Se fosse para sabotar algum governo, teria sido o último, quando subiu a taxa de juros”.
Adiante, as eleições foram tema do painel. Para Esteves, o governo não foi a vitória de um partido e nem de uma ideologia. “Um segmento da sociedade acreditava que a defesa da democracia passava pela mudança de poder”, explicou. Ele ainda ressaltou o fato do Brasil possuir eleições limpas e “uma das mais modernas do mundo”.
No ambiente externo, o sócio sênior do BTG demonstrou seu pessimismo acerca das projeções muito positivas, na opinião dele, sobre o processo de desinflação no mundo. Ele explicou que a Europa não resolveu a questão da guerra na Ucrânia, na verdade, ela se acostumou. E, ao contrário do que muitos pensam, o conflito escalou nos últimos meses. A análise sobre a China é que haverá uma onda muito positiva agora, mas no médio prazo eles ainda têm desafios, como o Real Estate. Por último, as tensões recentes entre EUA e China terão um desenrolar.
Política Monetária Brasileira
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, foi o segundo convidado do primeiro dia de evento. O painel passou por diversos assuntos, desde o cenário nos Estados Unidos até a implementação tecnológica que o Banco Central implementou.
No que diz respeito aos Estados Unidos, Campos Neto destacou bastante a questão inflacionária por lá e destacou a importância de acompanhar o ritmo e o desenvolvimento da inflação.
Como não poderia deixar de acontecer, o presidente foi questionado sobre o “braço de ferro” envolvendo o Banco Central e o governo. “Acho que é importante respeitar as instituições e seguir as regras do jogo”, disse ele sobre as questões acerca de uma revisão na meta da inflação. Na relação com o novo governo, Campos Neto pediu “um pouco mais de boa vontade”.
“O investidor é muito apressado, é muito afoito. A gente precisa ter um pouco mais de boa vontade com o governo, 45 dias é pouco tempo. Acho que tem uma boa vontade enorme do ministro Haddad, de falar: olha, temos aqui um princípio de seguir um plano fiscal com disciplina, tem um arcabouço que está sendo trabalhado. Já foram elaborados alguns objetivos. A gente precisa ter um pouco de boa vontade”, declarou, Campos Neto.
Acerca da polêmica da autonomia do Banco Central, ele afirmou ser muito importante e ainda mencionou alguns países como exemplo. Ele mencionou o Chile, onde não mexer com a autonomia da autoridade monetária é um dos princípios, e também falou do Peru, que vive uma crise política, mas que, segundo ele, o presidente da autarquia peruana dirige de forma totalmente independente, sem as interferências de um sistema político instável.
A tecnologia também foi tema do painel. Campos Neto debateu sobre pix e real digital, dizendo que já há um piloto da moeda digital. Ele também explicou que “é um processo bom para os bancos que vão ter mais digitalização em seus processos e vai gerar muita eficiência”.
Novo Governo e os Efeitos nas Carteiras de Ações
André Caldas, Sócio da Clave Capital, Christian Faricelli, Sócio da Absolute Investimentos, e Laercio Henrique, Sócio BTG, foram,os convidados e discutiram sobre cenário e renda variável.
Caldas comentou sobre o cenário de juros altos e a falta de visibilidade para saber qual vai ser o momento de corte, criando um cenário desafiador. Ele foi perguntado também sobre empresas estatais, das quais destacou o Banco do Brasil que, segundo ele, está com um valuation muito atrativo e em um bom momento. O sócio mencionou também a Petrobras, mas ponderou que aguarda mais definições do novo presidente.
Laercio foi por esse campo das estatais, porém, ao contrário de Caldas, opinou que prefere se expor a um banco privado, como o Itaú, por exemplo, ao invés do Banco do Brasil. Ele também comentou sobre o caso das lojas Americanas, que definiu como a “maior fraude contábil que conhece”.
O apetite do investidor estrangeiro foi alvo de debate. Faricelli disse que o investidor acha que em algum momento os juros cairá e está de olho no cenário para os emergentes. “O investidor local está com muito medo do governo e o estrangeiro com menos. O investidor estrangeiro que está vindo para o Brasil é puramente o que está fazendo trade global, então da mesma forma que ele entrou com o dinheiro, ele pode sair. Não é uma visão de 5 ou 10 anos”, completou.
O Futuro do Mercado Brasileiro de Capitais
João Pedro Nascimento, presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), foi outro convidado do primeiro dia de evento. Dentre os assuntos discutidos, ele passou sobre importantes normas implementadas pela instituição nos últimos anos, como o marco legal das startups (flexibilização da dispensa das demonstrações financeiras para as companhias abertas com receita bruta anual inferior a R$ 500 milhões), a nova regra de fundos de investimento (apresentou uma simplificação, consolidação em um arcabouço único), a resolução 135 (regra que fala dos mercados organizados) e a nova regra dos assessores de investimentos (promove a liberdade e acaba com a exclusividade regulatória).
Além disso, Nascimento comentou sobre o open capital market, o qual é a transposição do open finance para o mercado de capitais, passando a ideia de finanças descentralizadas e abertura do mercado de capitais, e sobre o evento que atingiu a Americanas. Nesta linha, sem citar nomes, ele disse que a CVM não comenta nenhum caso específico, mas tratam como algo gravíssimo, que não pouparão esforços para responsabilizar cada um dos responsáveis pelos acontecimentos e classificou o caso como lamentável.
O Momento do Varejo Brasileiro
Painel bastante aguardado em meio a toda polêmica envolvendo a Americanas, gigante do setor do varejo, Stelleo Tolda, Conselheiro do Mercado Livre, e Roberto Fulcherberguer, CEO da Via, falaram sobre os acontecimentos da empresa e outros aspectos do mercado.
Em relação ao caso da Americanas, Tolda contou que houve um impacto no setor, mas ponderou que, além disso, houve o aumento da alta de juros do ano que implica fortemente no cenário competitivo. Ele explicou que os recentes eventos, do ponto de vista do investidor, traz a lição da importância de ser mais seletivo.
O conselheiro ainda falou sobre o mercado em geral, com destaque para a participação dos players estrangeiros, tais quais Amazon, Shopee e Shein. Ele afirmou que essa chegada não é surpresa, dizendo que o potencial de crescimento do mercado tem acomodado todos. “Esses outros players trazem novidades, e quem decide é o consumidor, que vai atrás do melhor preço, experiência e outros atributos”.
Transição Energética: Fontes Alternativas e Crescimento
A transição energética também foi alvo de debate durante o CEO Conference de 2023. Com a presença de Marcos Lutz, CEO da Ultrapar, e Mauricio Bähr, CEO da Engie Brasil, o painel percorreu sobre o posicionamento do Brasil e do mundo neste tema.
Lutz destacou as vantagens do Brasil, caracterizando como um país diferente e privilegiado. Ele afirmou que o biocombustível é uma parte do ecossistema renovável que ainda é muito subutilizado em uma perspectiva global. “O biocombustível como uma política de governo faz muito sentido para o Brasil”, disse.
As consequências energéticas da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, na opinião de Bähr, é uma lição para nós que estamos distantes da Europa. “O maior aprendizado que tivemos foi que a Europa se valeu de uma infraestrutura de muitos anos que permitiu a ela garantir a segurança de suprimentos nesse período. Para o Brasil fica que devemos aproveitar o momento de bonança energética para construir a nossa infraestrutura para garantir essa segurança de suprimentos.
A Agenda de Reformas Estruturais do Brasil
Bernard Appy, Secretário Especial da Reforma Tributária, e Gustavo Guimarães, Secretário Executivo do Ministério do Planejamento, participaram do painel junto a Mansueto Almeida.
Os três discutiram sobre a reforma tributária e o amadurecimento da proposta. “Hoje estamos em uma situação mais favorável à aprovação da reforma tributária. Pelo amadurecimento da sociedade, entes federativos e pelo avanço no congresso nacional o tema já avançou muito”, explicou Appy.
Appy falou que um IVA (Imposto sobre Valor Agregado) ideal na reforma tributária deve ter o mínimo possível de benefícios fiscais, que geram, segundo ele, distorções nas alocações da economia, contrapondo ao Brasil que tem cinco impostos entre federais, estaduais e municipais. Neste sentido, para Appy, o IVA para dar certo aqui no Brasil precisa ter o menor número de alíquotas possível e nenhum benefício fiscal.
A Agenda Política Brasileira: O Papel do Senador
O último painel do dia recebeu o presidente do Senado Rodrigo Pacheco. Pacheco passou por diversas temáticas e disse que após a sua reeleição no Senado busca a unificação de “um Senado que seja um só”. “Nosso trabalho é em busca constante de uma reunificação na Casa, assim como no Brasil”.
O embate entre governo e Banco Central tomou boa parte do tempo do painel, assim como foi em outros. Ele afirmou que não houve nenhuma formalização quanto a retroceder a autonomia do Banco Central ou desoneração de Campos Neto. “Não vejo nenhuma perspectiva de retrocesso em relação à autonomia do Banco Central”, opinou.
Ele ainda expôs o que pensa sobre o comportamento do governo nessa questão e disse que “acha muito importante a sinceridade e verbalização do que se pensa, mas tem certeza que o presidente Lula compreenderá que essa é uma realidade que ele e o governo terão que conviver”.
A entrevista com a jornalista Amanda Klein discutiu sobre os atos de 8 de janeiro, polarização das eleições, a busca pela reconciliação e reforma tributária. A respeito desta última, ele expressou o desejo de que a reforma seja concretizada. “Nós temos que fazer a reforma tributária. O desejo é esse ano”.
Por fim, Pacheco foi perguntado sobre os atos de 8 de janeiro e de uma possível participação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele respondeu que “não pode afirmar isso. Essa será uma investigação que com certeza vai ser feita. O que eu atribuo a ele [Bolsonaro] foi a sua incapacidade de conter sua militância e adeptos. Não houve da parte dele fazer com que aquelas pessoas entendessem que democracia é algo que não se mexe”, finalizou.
O CEO Conference Brasil 2023 retorna nesta quarta-feira (15) com a presença de Fernando Haddad em um dos painéis.
Este conteúdo é produzido pela PORTOFINO MULTI FAMILY OFFICE e fomenta o diálogo sobre a política e o empresariado brasileiro. A nossa opinião é neutra e não é partidária.
Para encerrar a “Super Quarta”, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu ontem (1), por unanimidade, manter a taxa Selic em 13,75% pela quarta reunião consecutiva. A decisão era amplamente esperada pelo mercado, portanto as atenções foram direcionadas para o comunicado divulgado após a decisão.
O tom apresentado pelo comitê foi mais duro quanto ao nível da taxa de juros à frente. A sinalização da autoridade monetária é que os juros devem se manter em patamares elevados por mais tempo do que o mercado precificou.
No texto, o comitê ressaltou a preocupação com o cenário fiscal, afirmando que “a conjuntura, particularmente incerta no âmbito fiscal e com as expectativas de inflação se distanciando da meta em horizontes mais longos, demanda maior atenção na condução da política monetária”.
O Copom, por fim, reforçou sua postura vigilante ao enfatizar que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado.
Em linha com o esperado, o Federal Reserve elevou a taxa de juros básica em 0,25 ponto percentual, para o patamar de 4,5% a 4,75%, o oitavo aumento consecutivo. A reação do mercado foi positiva com a divulgação de mais uma alta, mas o tom por parte dos americanos ainda foi de cautela.
A decisão unânime do comitê reforça a preocupação com o descontrole da inflação, mesmo com a desaceleração apresentada nas recentes leituras. O Banco Central americano seguirá aumentando as taxas até ver sinais mais fortes do controle inflacionário.
No comunicado, o Fed atribuiu à guerra na Ucrânia como um dos principais fatores do aumento de preços, já que o confronto segue “provocando dificuldades humanas e econômicas, contribuindo com o aumento de incertezas”. Apesar da sinalização de mais altas futuramente, o comitê afirmou que irá basear as próximas decisões conforme os indicadores econômicos, dando flexibilidade para ajustar sua estratégia e atingir suas metas.
Pragmatismo: são variadas as definições. Mas, doutrinas filosóficas à parte, ser pragmático significa ter seus objetivos muito claros e basear suas atitudes na direção de ter estes alcançados, independentemente de dogmas ou ideologias. Nosso presidente Lula, que caminha para completar o primeiro mês do seu terceiro mandato, sempre foi, por muitos, estereotipado como exemplo de pragmatismo, animal político. A despeito das convicções partidárias, ele sempre foi percebido como aquele que pôs o propósito à frente das demandas da base mais ortodoxa do seu partido.
Banco Central independente e congresso nacional com maioria de centro-direita têm sido as salvaguardas do chamado “mercado”, contrapontos a um possível governo potencialmente mais populista. Todavia, desde a posse, os sinais emitidos pelo atual governo têm sido, no mínimo, surpreendentes. O “nós contra eles” tomou novas proporções no discurso recorrente do presidente eleito. Uma falsa dicotomia entre a responsabilidade para com os gastos públicos e a necessidade de se atender a urgente agenda social, foi criada. E mais que isso, incentivada em sua percepção nas falas do presidente.
A “vilanização” do teto de gastos criado no governo Temer, foi o mantra repetido por interlocutores do novo governo. O ex-presidente foi explicitamente acusado de ter promovido um golpe, que se golpe fosse, não teria sido aprovado pela maioria qualificada dos parlamentares que hoje negociam a governabilidade diretamente com o presidente Lula. Tudo isso referendado pelo pleno do Supremo Tribunal Federal.
E por falar em “vilanização”, o malvado favorito da vez se materializou na figura etérea do mercado financeiro. “Desumanos”, “sem coração”, “desprovidos de sensibilidade e humanismo”, foram alguns dos adjetivos proferidos pelo presidente eleito enquanto se referindo aos agentes econômicos. “Banco Central independente? Para quê?” “Juros a 13,75% enquanto a inflação está 6,5%-7,5%, por quê?” “O empresário ganha dinheiro não porque trabalhou, mas sim porque os trabalhadores dele trabalharam”. No mínimo nos causa estranheza um comentário nessa direção, uma vez que, segundo o SEBRAE, a população beneficiada por empreendedores que conduzem pequenos negócios no Brasil, supera a população da França, Reino Unido, África do Sul e Argentina. Faz tempo que o Brasil se tornou um país de pequenos empresários e empreendedores, responsáveis estes pela geração da maioria das vagas formais de emprego nos últimos meses.
Poderíamos nos estender mais aqui: BNDES voltando a financiar “investimentos” em países vizinhos, revisão da TLP com juros subsidiados, a volta do parafiscal. Essas atitudes e discurso nos parecem pragmáticos? Depende do que imaginamos ser, segundo a definição de pragmatismo, os objetivos do presidente eleito. Diferentemente do que se poderia esperar, atender as expectativas do mercado parece não ser o objetivo primeiro do presidente nesse momento. Responsabilidade fiscal, sim. Agora, talvez não. E é aqui que está o risco.
A zero de jogo, o novo governo optou por despender de capital político, negociando a aprovação da PEC da Transição, proposta de emenda constitucional que, na verdade, oficializa um perdão para se gastar, de forma permanente, aproximadamente 2% do PIB. Política pública? Não, atendimento das promessas de campanha.
Mas, o ponto essencial aqui nos parece ser a confirmação de pragmatismo por parte do novo presidente em, a despeito da saúde fiscal estrutural, atender às expectativas, não do mercado financeiro, mas daqueles que o elegeram. Na prática, a urgência de curto prazo será manter o nível de aprovação do governo em níveis aceitáveis para se garantir ao executivo federal o apoio popular mínimo necessário para governar com maior tranquilidade. Não podemos esquecer que o pleito foi vencido por magra maioria. Limitando a nossa análise ao que foi descrito até aqui, o cenário prospectivo para investimentos em ativos domésticos não poderia ser pior.
Às vezes, como dizem os americanos, “better be lucky than smart”. O mundo desenvolvido transita para um ambiente de desinflação, já é possível antever o fim do ciclo do aumento de juros nos Estados Unidos e na Europa, principalmente a Alemanha, equacionou as restrições energéticas impostas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia. E para coroar esse cenário mais benigno, a China, a despeito do recente surto da Covid-19, fez a opção pela reabertura da sua economia com todas as externalidades positivas que essa decisão irá gerar sobre o crescimento mundial e preços de commodities.
Domesticamente o cenário não poderia ser mais incerto e temerário. Um cenário externo favorável, ilusoriamente, poderá passar a impressão ao governo, via o preço do câmbio, de que as escolhas econômicas adotadas parecem referendadas pelo mercado. E aqui mora o perigo. O discurso até agora é ruim e a sinalização de que a política econômica é decidida pelo presidente e executada pela Fazenda, é péssima.
Ter sorte é sempre bom, uma dádiva. Depender dela, depender do cenário externo benigno, é uma escolha. Às vezes, ter sorte pode ser melhor que ter juízo, juízo fiscal. Veremos.
Eduardo Castro é Chief Investment Officer na Portofino Multi Family Office e escreve mensalmente esta Carta de Gestão, “Causa e Efeito”, que traz a sua visão estratégica sobre os principais fatos dos mercados e seus impactos.