Por Priscila Yazbek, correspondente internacional da CNN Brasil em Paris.
Os superlativos não foram poupados para definir a importância da inteligência artificial (IA) no Fórum Econômico Mundial de 2024, em Davos, na Suíça. O jornal Financial Times afirmou que “a inteligência artificial dominou as conversas”. Arati Prabhakar, diretor do Gabinete de Política Tecnológica da Casa Branca, disse que a IA “é a tecnologia mais poderosa do nosso tempo”. Para a agência de notícias Reuters, o tema criou “um burburinho em Davos”. E o francês Le Monde disse que a IA é “a nova religião dos negócios” e o fundador do ChatGPT, Sam Altman, “o messias do fórum”.
“Foi o único assunto capaz de disputar a atenção da elite global com os conflitos em Gaza, na Ucrânia e as eleições americanas”.
Entre as dezenas de debates sobre o tema, o mais comentado foi o encontro entre Sam Altman e o diretor-executivo da Microsoft, Satya Nadella. Altman definiu a relação entre eles como o “melhor bromance da tecnologia”. Nadella correspondeu e concordou com Altman em quase tudo. Entre os ganhadores e perdedores da corrida pela nova tecnologia, a Microsoft é provavelmente o maior vencedor. A parceria com a OpenAI, dona do ChatGPT, catapultou a empresa e levou a Microsoft a se tornar a companhia mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 2,89 trilhões, ultrapassando a Apple.
Mas houve uma discordância sutil entre o par romântico. Nadella enfatizou um olhar 100% positivo sobre a IA, dizendo que o mundo está prestes a alcançar “um momento mágico”, semelhante às mudanças provocadas pelo computador pessoal. Já Altman foi mais cauteloso e lembrou que a IA pode ter um poder cognitivo maior do que qualquer ser humano e que “nós não fazemos ideia do que vem a seguir”.
Alguns exemplos ruins já surgiram, como o software que recusou candidatos a empregos acima de uma certa idade, ou o chatbot que produziu posts racistas, além dos inúmeros processos de direitos autorais.
A irresistível promessa da produtividade
Mas o que leva a empolgação com a IA a superar qualquer presságio pessimista é um ponto-chave: o ganho de produtividade. E não há promessa mais sedutora para um líder empresarial.
Dois dados da IBM foram amplamente repetidos nos Alpes suíços:
os negócios podem faturar US$ 10 trilhões na próxima década com o aumento de produtividade trazido pela IA;
73% das empresas já estão explorando ativamente a tecnologia em seus negócios, segundo o índice de adoção de IA de 2023 da IBM e da Morning Consult.
O chefe de tecnologia da Casa Branca disse que as soluções para praticamente todos os grandes desafios do mundo passam pela IA. “Se pensarmos no trabalho que temos pela frente — lidar com a crise climática, melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas, garantir que os nossos filhos sejam educados e que as pessoas nas suas carreiras possam treinar para adquirir novas competências, é difícil ver como faremos isso sem o poder da IA”, disse Arati Prabhakar.
O grande desafio é como transformar a tecnologia em fonte de receita, o famoso “como monetizar”. Algumas ideias começam a aparecer.
Para a Reuters, o CEO do BLP Group, uma importante operadora eólica e solar na Índia, disse que está incorporando a tecnologia de chat de IA para uso interno para escrever bem em inglês, não para conteúdo.
Cohere, uma startup de IA de alto nível focada em empresas, vê a ajuda aos vendedores como um caminho de receita. A ideia seria usar a ferramenta para trazer mais divulgação, acompanhamento e automatizar processos, para tornar as equipes de vendas mais produtivas.
A importância de governos acompanharem o movimento
Além de adaptar os negócios à inteligência artificial, também se falou muito em Davos sobre como adaptar a sociedade à nova tecnologia.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou na véspera do evento um estudo que mostra que quatro em cada dez empregos no mundo estão ameaçados pela IA. A diretora do fundo, Kristalina Georgieva, pediu que os governos sejam proativos e estabeleçam redes de segurança social e programas de reciclagem para conter o impacto da IA. Caso contrário, a tecnologia vai elevar a desigualdade e as tensões sociais no mundo, segundo Georgieva.
O primeiro-ministro Li Qiang, da China, afirmou em Davos que a IA deve servir o bem comum, mas deve ser governada de forma adequada, porque “representa riscos à segurança e à ética”. Líderes europeus e dos Estados Unidos têm discutido regulamentos sobre IA há anos e falaram amplamente sobre seus esforços.
CEOs explicam que o verdadeiro desafio não é a substituição de empregos por máquinas, mas por pessoas que saibam usar a IA.
Em meio à tanta discussão, um dado é certo: ainda existem tantas perguntas quanto respostas. E ignorar o tema, seja na política ou nos negócios, não está entre as alternativas corretas.
Somos parceiros da Esfera BR, uma iniciativa independente e apartidária que fomenta o pensamento e o diálogo sobre o Brasil, um think tank que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva. Todas as opiniões aqui apresentadas são dos participantes do evento. O nosso posicionamento nesta iniciativa é o de ouvir todos os lados, neutro e não partidário.
Clique aqui para ler sobre outras personalidades e eventos promovidos pela Esfera BR e Portofino MFO.
Afinal, qual o significado desse conceito tão disseminado e replicado nos principais atuantes do mercado financeiro? Como aplicá-lo de forma eficiente? Preciso mudar constantemente? Se sim, qual periodicidade? Quais são os riscos? É replicável, posso copiar? Essas são algumas perguntas que iremos responder nesse artigo. Espero que gostem da leitura.
O Asset Allocation de uma carteira de investimentos nada mais é do que a distribuição de seus recursos financeiros em diferentes classes de ativos, sendo as principais: renda fixa, renda variável, alternativos e caixa. Quanto maior a complexidade e a diversificação que deseja atingir, mais abrangente pode ser a sua alocação. Desse modo, uma carteira pode ter investimentos em subclasses como treasury, corporate bonds investment grade, high yield, emerging markets, preferreds para renda fixa, large, mid e small caps, technology, european, latam, asian equities para variável e real estate, private equity, venture capital, commodities e até criptomoedas para alternativos (glossário Portofino). É claro que esse universo é imenso, todo tipo de investimento realizado vai ter uma nomenclatura por trás, é normal. A imagem abaixo retirada do Novel Investor mostra o retorno histórico das principais classes em um horizonte de 15 anos.
A grande questão aqui é: nenhuma gestora, por maior e mais consagrada que seja, irá acertar com consistência a classe vencedora todos os anos. O que devemos fazer é saber selecionar os “cavalos” e as “corridas” que iremos correr. Aí que entra o Asset Allocation.
Dentro das classes de ativos mencionadas acima, existem produtos disponíveis que tentam seguir ou ganhar dos índices de mercado (com certeza um tema para outro artigo), mas, pelo fato de terem um benchmark, também estão limitados aos seus riscos. Para dar um exemplo mais concreto, um gestor de ações listadas se propõe a bater o índice S&P 500, para isso, ele irá analisar e definir ações que irão superar a performance do índice, limitado aos ganhos e perdas das mesmas.
No final, os alocadores devem estipular porcentagens máximas e mínimas que podem ter em cada classe de ativo a fim de cumprir os objetivos de longo prazo para seus clientes, levando em consideração os seis pilares a seguir:
Diversificação: a descorrelação dos produtos da carteira é algo essencial para um retorno consistente de longo prazo, tanto nas classes e subclasses de ativo como geograficamente. Ao diversificar, você pode minimizar o impacto negativo de um mau desempenho em uma classe ou país específico.
Rebalanceamento: nada adianta diversificar se você não mantiver uma constância de rebalanceamento. Ele consiste no ajuste periódico da alocação de ativos para manter a proporção desejada, dado que se valorizam ou desvalorizam. Normalmente, a atividade é realizada semestralmente, mas com revisões esporádicas de acordo com acontecimentos impactantes. Esse rebalanceamento ajuda a manutenção dos objetivos de longo prazo.
Perfil de Risco: avaliação do nível de tolerância ao risco. Ele ajuda a determinar a proporção de diferentes ativos em sua carteira com base no conforto com a volatilidade e a necessidade de retorno. Preencher o suitability (perfil do cliente) e traçar claramente seus objetivos são pontos fundamentais para o equilíbrio do portfólio.
Horizonte de Tempo: o período que pretende manter os investimentos. Em alguns casos, o simples fato de não precisar de liquidez no curto prazo, acaba te remunerando melhor para riscos muito similares. Em outros casos, você pode pagar caro se precisar sair antes do período final de um investimento.
Produtos: determinar em que time você quer estar. Essa parte leva em consideração os custos da instituição, número de ofertas, se tem acesso personalizado ou exclusivo, volume, eficiência operacional e outros.
Ciclos Econômicos: a alocação de ativos também pode ser influenciada pelos diferentes estágios dos ciclos econômicos, como expansão, recessão, recuperação e desaceleração. Importante que a alocação acordada tenha um “range” percentual para cada subclasse, o que dá autonomia para aumentar ou diminuir o risco de acordo com o ciclo econômico, mas respeitando o perfil do cliente.
Um estudo do CFA Institute que mede o retorno histórico de fundos de pensão e suas atribuições de performance sugere que mais de 91,5% do retorno de uma carteira é atribuível ao seu mix de classes de ativos. Neste estudo, a seleção individual de ações e o market timing representaram menos de 7% do retorno de uma carteira diversificada.
Esse conceito move os motores da gestão da Portofino. A maneira com que compomos e readequamos o asset allocation é única, exclusiva e irreplicável. Acreditamos que dessa maneira temos recursos de sobra para fazer um investimento equilibrado e condizente com o perfil dos nossos clientes. Qualquer dúvida sobre o assunto, fique à vontade para acionar os nossos especialistas de investimento.
Fernando Godoy cursou Administração de Empresas na FGV com foco em Gestão Estratégica, atuou por 2 anos em empresa de capital aberto e possui 7 anos de experiência no mercado financeiro, com ênfase em investimentos internacionais. Está no time da Portofino MFO há 5 anos, 3 deles como sócio.
Do cálido abraço de um barril de carvalho ao intrincado balé de grãos selecionados, o universo do whisky é um conto de sabores, tradições e refinamento. O seu nome “whisky” deriva da palavra gaélica “uisge beatha”, que significa “água da vida” e tem sua origem atribuída a monges na Irlanda e Escócia que destilavam bebidas alcoólicas por volta do século XV.
O universo dos whiskies reserva segredos e nuances fascinantes, a começar por toda a experiência que envolve a degustação da bebida, com a observação de cor, olfato, paladar e sensação ao engolir. A madeira, principalmente o carvalho, contribui com sabores complexos ao whisky ao longo dos anos, adicionando camadas de sabor e aroma.
Dentre as inúmeras curiosidades do mundo da coleção dos destilados, no último mês, o Macallan 1926 60 anos, com um rótulo projetado pelo artista italiano Valerio Adami, quebrou o recorde de whisky mais caro do mundo ao ser leiloado por US$ 2,71 milhões (R$ 13,1 milhões), superando o US$ 1,9 milhão de outra garrafa Macallan 1926 60 anos, mas com o rótulo Fine and Rare.
Não é novidade para os whiskies Macallan ocuparem a posição de mais valiosos do mundo. Esta é a décima vez que uma garrafa da destilaria detém esse título e ocupando o topo por 24 dos 40 anos, quando o primeiro recorde foi estabelecido em 1983.
Apesar do novo recorde estabelecido, o Macallan 1926 60 anos não é o whisky mais envelhecido do mundo. O The Reach, também da Macallan, possui um rótulo de 81 anos, mostrando que para ser considerado o mais valioso do mundo muitas outras características são importantes para agregar valor.
Em cada gole, o whisky conta histórias, transmite a herança de gerações e revela a maestria por trás de sua criação. O recorde estabelecido pelo Macallan 1926 60 anos não é apenas um reflexo de sua idade, mas sim de uma tradição centenária, um brinde à paixão, à precisão e ao encanto que tornam cada gota de whisky uma experiência única e inestimável. Um brinde à arte do whisky!
Neste link, você confere a matéria da Forbes que traz mais curiosidades sobre o whisky mais caro do mundo.
O Brasil chega à 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 28), em Dubai, com a maior comitiva já enviada à cúpula para debater as mudanças climáticas e as formas de mitigar os efeitos no planeta. Entre as mensagens que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) espera passar é a de que o País pode liderar a transição energética, tema que foi objeto de diferentes debates ao longo do ano em eventos realizados pela Esfera Brasil.
Nas redes sociais, o presidente escreveu: “Uma série de agendas de interesse nacional. Abertura de mercados e atração de investimentos, principalmente em energia renovável. Muito trabalho para recolocar nosso País no cenário internacional, e atrair investimentos que gerem emprego e desenvolvimento para o Brasil”.
Para Luciana Aparecida Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o governo Lula foi responsável por resgatar a pauta da transição energética e ecológica e de combate ao desmatamento.
“O Brasil quer assumir uma liderança climática e é importante para a transição energética e ecológica do mundo. Nós, neste ano, alcançamos resultados importantes, como a queda de 49,7% do desmatamento entre janeiro e outubro de 2023 na comparação com o mesmo período do ano passado. Essa é uma grande mensagem”, disse.
Mas não só isso: o Brasil assumiu o compromisso de zerar o desmatamento até 2030 e quer ser líder em reflorestamento, uma vez que tem a maior floresta tropical do mundo.
O Brasil é o quinto maior emissor de gás do efeito estufa. Metade das emissões vem do desmatamento e 24% pelo uso da terra. “É mais barato controlar o desmatamento, porque ele está ligado ao crime organizado e não ao PIB [Produto Interno Bruto]”, acredita a executiva.
Ela revelou que o BNDES vai desembolsar este ano 35% a mais em projetos de infraestrutura e transição energética em relação a 2022. “Vamos aprovar 15% mais. A gente aprovou R$ 52 bilhões e devemos desembolsar uns R$ 39 bilhões, então no BNDES a gente não para”, diz.
Vantagens
O Brasil está de fato em uma posição vantajosa quando o assunto é transição energética. Entre os países do G20, nenhum deles tem as mesmas vantagens comparativas combinadas, na avaliação de Luciana Costa. São elas:
estabilidade política- o Brasil está entre os 15 países que têm relacionamento com todos os países da ONU;
estabilidade legal;
estabilidade regulatória;
protagonismo na segurança alimentar – o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo;
maior biodiversidade do planeta e a maior floresta tropical do planeta;
detém 13% da água doce do mundo;
tem a matriz energética mais limpa: 88% renovável;
custo nivelado de energia solar e eólica entre os mais competitivos do mundo;
reservas de minerais críticos, como lítio e níquel;
existência de sistema elétrico interconectado e hidrelétricas que servem como bateria;
presença dos biocombustíveis desde a década de 1970.
Segundo Luciana Costa, um dos grandes trunfos do Brasil é que o governo sabe dessas vantagens comparativas e está elaborando um plano ecológico.
“A gente está discutindo taxonomia verde e framework regulatório para economia verde. Entra aí também o PL [Projeto de Lei] do hidrogênio verde, PL do combustível de baixo carbono, PL de mercado regulado de carbono, PL de armazenamento e PL de eólica offshore. Então é prioridade do governo essa agenda verde”, afirma. E complementa: “O Congresso está ciente da necessidade de aprovar essa agenda, que unifica a sociedade. Todos já perceberam a grande oportunidade que o Brasil tem”.
A descarbonização da economia é uma das metas do governo e desperta interesse mundial. O Brasil poderá escolher em quais rotas tecnológicas apostar, segundo a diretora do BNDES. Uma delas são os biocombustíveis, já que o País é um importante player mundial e pode liderar também o combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês). Outra importante aposta do BNDES é a eletrificação da frota de ônibus.
“A gente pode optar pela rota da energia renovável e do hidrogênio verde, pela rota do biogás e biometano. O Brasil tem muito resíduo da pecuária, do açúcar e álcool, a vinhaça, que são insumos para produção de biometano”, explica Luciana Costa.
Capital
Para a diretora, é essencial para o País ter o BNDES, que é 100% estatal, e é considerado o maior banco de fomento da América Latina.
“Temos expertise nos setores de infraestrutura e energia, e o BNDES é um instrumento oficial de política industrial, de fomento à infraestrutura. Ter um BNDES no momento de transição energética é muito importante. Pelo ranking da BloombergNEF, somos o maior financiador de energia renovável do mundo”, revela.
Mas a transição energética tem um alto custo e será preciso uma combinação de capitais para dar conta do desafio. Entre eles: funding privado, público, do BNDES, de bancos de fomento internacionais, como Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Mundial, ainda recursos dos mercados de capital local e internacional, concessional e de doações.
“A transição energética é intensiva em capital. A gente precisa de muito investimento na nova infraestrutura dessa nova economia. O mundo, desde a segunda metade do século 19, está construindo a infraestrutura da cadeia do óleo e do gás, a gente precisa agora construir a infraestrutura do hidrogênio verde, de eletrificação de frota, então é muito capex envolvido e é caro”, conta Luciana.
Transição
Como o nome diz, a transição energética não será rápida. A diretora do BNDES explicou que o mundo consome 100 milhões de barris de óleo equivalente (boe). Em 2050, segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo será de 57 milhões de boe: “Porque o petróleo não é só energia, é insumo para produção de produtos, então é um processo lento sim”.
Em países da Europa, por exemplo, a transição terá um custo ainda maior, uma vez que a matriz elétrica está baseada no carvão, que é um combustível fóssil, o que exige um esforço ainda maior para mudar o processo industrial.
No Brasil, algumas rotas tecnológicas estão mais avançadas e precisam de menos subsídios, segundo Luciana Costa. Uma delas é a eletrificação da frota. O investimento inicial é maior, já que o ônibus elétrico custa três vezes mais do que o veículo a diesel, mas o valor é compensado ao longo do tempo com a redução em combustível e em manutenção.
Um dos maiores desafios brasileiros é a implantação das eólicas offshore, que geram energia em alto-mar. “Vai ser viável daqui mais de 10 anos, não antes. É capex intensivo, com tecnologia nova, e é muito caro. Inclusive alguns projetos na Europa e nos Estados Unidos, que tinham sido anunciados, estão sendo revistos”, conta.
Para atrair o capital necessário, o Brasil vai ter de fazer a lição de casa. “A gente precisa ter um ambiente institucional definido, saber a regra do jogo, e quem define é a lei. A sociedade vai ter que discutir no ano que vem o que rever em alguns subsídios e incentivos. E estruturar bons projetos, isso o BNDES vai continuar fazendo”, afirma.
Somos parceiros da Esfera BR, uma iniciativa independente e apartidária que fomenta o pensamento e o diálogo sobre o Brasil, um think tank que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva. Todas as opiniões aqui apresentadas são dos participantes do evento. O nosso posicionamento nesta iniciativa é o de ouvir todos os lados, neutro e não partidário.
Clique aqui para ler sobre outras personalidades e eventos promovidos pela Esfera BR e Portofino MFO.
Quando o assunto é casamento, falar em pacto “pré-nupcial” e separação total de bens, em um primeiro momento, até parece um prenúncio ao divórcio. Para muitas pessoas, a primeira reação ao assunto não é boa. Há um certo choque, seguido de uma reflexão sobre confiança, interesses e perspectivas futuras para o relacionamento.
Eu entendo a surpresa e a estranheza do primeiro contato. Quando comecei a trabalhar com planejamento sucessório de famílias também não era intuitivo considerar a separação total de bens. Parecia o oposto ao conceito tradicional de casamento e de comunhão de vida que eu conhecia.
Depois de alguns anos acompanhando diversas famílias, vejo o tema de outra forma. Não existe receita de bolo, cada relacionamento tem suas peculiaridades e o regime de bens que melhor atende ao casal. Minha constatação prática é que a decisão de assinar um pacto “pré-nupcial” e optar pela separação de bens envolve diversos fatores, como o ponto de partida do casal, a atividade profissional exercida, as contribuições relacionadas ao lar e à criação dos filhos e a organização financeira da família.
O ponto de partida
Quando há patrimônio familiar envolvido é comum existir a preocupação de proteger esses bens de terceiros em caso de divórcio. São empresas familiares, fazendas, negócios imobiliários, entre outros exemplos, que são passados por gerações e que costumam prover o sustento de toda a família. Significa que o ponto de partida de quem vai casar não é zero. Antes do casamento uma das partes (ou ambas) já tem patrimônio, recebido da família, ou terá, no futuro, por meio de herança ou de doação em vida.
Nesse cenário, a separação total de bens é uma das formas de garantir que o patrimônio familiar e seus rendimentos, principalmente, permaneçam entre os membros da família consanguínea. De acordo com a lei, se as partes se divorciarem, não há bens a dividir, o que garante que o legado construído pela família não seja transferido a terceiros.
Aqui a proteção e segregação do patrimônio têm efeitos somente em vida. Em caso de morte a regra é outra: o viúvo que era casado em regime de separação total de bens é herdeiro “obrigatório” e tem direito à sua parte.
Atividade profissional
Em outras situações, a profissão ou o momento de carreira do casal influenciam na escolha do regime de bens. Executivos(as) de grandes empresas e diretores(as) de banco, por exemplo, possuem grandes responsabilidades em nome próprio. Se não há pacto “pré-nupcial”, o casamento segue a regra geral da comunhão parcial de bens – e de dívidas também.
Assim, se um executivo é responsabilizado por um erro profissional, por exemplo, os bens que ele possui em nome próprio estarão sujeitos à execução. Se for casado em comunhão parcial, os bens do cônjuge, adquiridos após o casamento, também poderão ser executados. Não há segregação.
É comum ouvir relatos de casais em que um dos cônjuges é empresário(a) e o outro, que não trabalha na empresa e exerce outra atividade, teve sua conta bloqueada. Nesses casos de profissões ou atividades de maior risco, o regime de separação de bens protege o casal, pois as dívidas não se misturam.
Quando não há preocupação com riscos ou dívidas, existem situações em que a comunhão parcial de bens pode atender melhor o casal. Pode surgir uma oportunidade profissional para um dos cônjuges que implique a renúncia da carreira de outro. Exemplo prático: profissionais altamente especializados, que são recrutados para trabalhar em outros países, com excelentes remunerações. Muitas vezes, o companheiro de quem recebeu a proposta precisa “abrir mão” de seu trabalho, ou de outras oportunidades, para acompanhar o cônjuge. É sempre uma análise conjunta, mas que demonstra que o sucesso profissional do casal está totalmente relacionado e que há um patrimônio comum, que as partes não querem segregar.
Dinâmica e Finanças do casal
Para além do papel e da lei, os arranjos feitos pelos casais é que definem, na prática, a dinâmica do patrimônio da família. Na minha opinião, são a parte mais importante. Há casais em que ambos trabalham, possuem rendimentos, mas em volumes diferentes. Costumam combinar em que medida cada um contribui para as receitas e despesas da família. Funciona bem.
Há outros em que uma das partes se dedica integralmente à casa e aos filhos, não tendo um trabalho formal. Muitas vezes até interrompendo uma carreira para cuidar do trabalho informal, dentro de casa. São contribuições diferentes para a construção de uma vida conjunta e do patrimônio familiar. Ambas envolvem tempo, dedicação e apoio mútuo.
Falando especificamente de casais que optaram pela separação de bens, quando há essa dinâmica de contribuições distintas (financeira e não financeira), a preocupação com o cenário de divórcio e com a “não divisão” de bens é legítima.
Nesses casos, a questão patrimonial pode ser facilmente contornada com doações periódicas de um cônjuge para o outro, de forma a balancear o que é a parcela de cada um no patrimônio que o casal construiu junto. Quando há diálogo e confiança entre as partes, é uma ótima alternativa.
Já acompanhei casais que realizavam doações anuais para garantir uma divisão patrimonial considerada justa e outros que optam por períodos mais longos de tempo, a cada 05 ou 10 anos. São pessoas casadas em separação total de bens, mas que vivem a “comunhão parcial” na prática, por ser um arranjo que deixa ambos confortáveis.
Exemplos como esses me levam à conclusão de que pacto pré-nupcial não significa preparação para o divórcio, nem é o oposto à vida conjunta e à construção de uma família. Também não é uma receita única que se aplica para todos os casos. É uma opção que demanda diálogo do casal e precisa ser feita de forma consciente considerando as características do relacionamento, o ponto de partida e os planos futuros. Me arrisco a dizer que o assunto de patrimônio e finanças do casal é tão importante que essa reflexão anterior ao casamento pode contribuir, inclusive, para uma relação mais longeva e saudável.
Victória Siqueira é Head de Wealth Planning na Portofino MFO, formada em Direito pela FGV, com extensão em General Business with Concentration in International Trade and Commerce pela UCLA.