Você pode não ver, mas elas estão em todo lugar: a disputa pelas terras raras

dez 15, 2025 | Family Office, Multi Family Office

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(Tempo de leitura: 5 minutos)

O que você precisa saber:
– As terras raras são elementos fundamentais para a fabricação de produtos de alta tecnologia
– A China é a grande líder mundial na produção e processamento desses minerais
– O Brasil abriga uma das maiores reservas do mundo


Cada vez mais, conforme o fim do ano se aproxima, começamos aquele ritual quase automático de relembrar o que marcou os últimos meses, revisitar assuntos que dominaram as conversas, montar listas. É o mesmo roteiro de sempre. Mas, como em todo filme longo, algumas cenas importantes desaparecem entre cortes rápidos. 

Em meio à disputa comercial entre potências, às discussões sobre juros, inflação e novas tarifas, um tema essencial ficou ali, no canto do quadro: as terras raras. Silenciosas, técnicas, aparentemente distantes da rotina, mas decisivas para o mundo que construímos e ainda mais para o que vem pela frente.

Para entender por que esse assunto ganhou tanta força, vale começar pelo básico: o que exatamente são as terras raras?

O que são terras raras?

As terras raras formam um grupo de 17 elementos quimicamente semelhantes, fundamentais para a fabricação de produtos de alta tecnologia. Embora não sejam tão escassos quanto o nome sugere, é difícil encontrá-los em forma pura e sua extração envolve riscos ambientais e operacionais significativos.

É possível que neodímio, ítrio e európio não façam parte do seu vocabulário diário, mas certamente fazem parte do seu cotidiano. O neodímio, por exemplo, é usado em ímãs potentes presentes em alto-falantes, discos rígidos, motores de veículos elétricos e até motores a jato. Já o ítrio e o európio ajudam a produzir as cores vibrantes de telas de televisões e computadores.

Além disso, as terras raras são peças-chave em equipamentos médicos, como lasers cirúrgicos e aparelhos de ressonância magnética, e desempenham papel indispensável em tecnologias de defesa.

Com esse pano de fundo, fica fácil entender por que elas se tornaram tão estratégicas. Esses elementos sustentam uma cadeia que vai de computadores domésticos a sistemas militares sofisticados. Por isso, passaram a ser vistas pelos EUA como um risco direto à segurança nacional. Boa parte das tecnologias usadas em armas, satélites e sistemas de defesa depende justamente desses materiais.

E é aqui que o quebra-cabeça geopolítico começa a ser montado.

As relações pelos minerais

Hoje, a China, segundo a Agência Internacional de Energia, é responsável por cerca de 61% da produção de terras raras e por 92% do seu processamento. Na prática, isso significa que Pequim controla quase toda a cadeia com capacidade real de decidir quem recebe ou deixa de receber suprimentos.

maiores reservas de terras raras

É esse poder que alimenta a tensão com os Estados Unidos.

Depois que Washington impôs tarifas comerciais em abril, a China respondeu restringindo a exportação de sete minerais de terras raras, em especial os chamados “pesados”, os quais são altamente relevantes para o setor de defesa. Por serem mais escassos e difíceis de processar, viraram moeda estratégica.

Nos últimos meses, após um período de certa tranquilidade, Pequim endureceu ainda mais o controle: empresas chinesas passaram a precisar de aprovação governamental para exportar, e companhias estrangeiras também passaram a depender do aval do governo para enviar esses materiais ao exterior.

Esse modus operandi é um golpe sensível para os norte-americanos. Entre 2020 e 2023, o país dependeu da China para cerca de 70% de suas importações de compostos e metais de terras raras, segundo relatório do Serviço Geológico dos EUA. Ou seja, Pequim tem uma carta na manga para negociar as relações comerciais com Washington.

Mas para entender como a China conquistou essa posição dominante, é preciso voltar algumas décadas. O país investiu persistentemente na construção de capacidade minerária e, sobretudo, no refino, a etapa mais complexa e cara da cadeia. Não por acaso, ainda nos anos 1990, um líder chinês já sintetizava a aposta estratégica: “O Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras.”

Agora, o mundo pode começar a procurar outros players. E é aí que entra a oportunidade para o Brasil.

Terras raras também por aqui

Hoje, o país abriga a segunda maior reserva mineral de terras raras do planeta, embora produza e refine muito pouco. Contudo, os investimentos em minerais críticos — como lítio e terras raras — estão acelerando. Segundo o Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), o setor deve receber US$ 18,45 bilhões até 2029. Só em projetos ligados a terras raras, a estimativa é de US$ 2,17 bilhões, quase 50% acima do ciclo anterior.

Diante dessa combinação de potencial geológico e necessidade global de diversificação, países como os EUA têm intensificado parcerias com aliados estratégicos, como a Austrália, em busca de um equilíbrio maior nessa cadeia tão sensível. O país da Oceania é um dos que têm mais recursos no assunto terras raras.

No fim das contas, as terras raras deixam de ser apenas um conjunto de elementos restritos aos livros de química. Elas se tornam peças centrais da disputa que deve ditar os rumos políticos, econômicos, militares e tecnológicos do futuro. Ainda estamos nos primeiros capítulos de uma história com potencial de se transformar em saga.

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