Conduzindo uma política muito restritiva e polêmica desde a eclosão do vírus, no dia 7 de dezembro, devido ao desaquecimento econômico e aos protestos contrários ao confinamento, a China abandonou abruptamente as severas medidas de saúde implementadas pela política de Covid-zero. Ela visava evitar a proliferação de contágios da doença, mas os efeitos foram duros para a economia global e para a população chinesa.
Esse movimento de reabertura aumentou a circulação das pessoas e, consequentemente, do vírus, resultando no crescimento do número de casos da doença. Logo após o relaxamento das medidas, notou-se uma discrepância no número real de casos e a quantidade reportada pelas autoridades, incluindo a de mortes. Neste sentido, a Comissão Nacional de Saúde anunciou que não irá mais informar os números diários de casos e mortes por Covid-19. Além disso, a maior circulação das pessoas colocou pressão nos hospitais, no sistema de saúde chinês e, de acordo com relatos de funcionários, serviços funerários estão cheios.
O momento é diferente. Atualmente, grande parte dos países já possui um esquema vacinal bastante desenvolvido e com importante parcela da população totalmente protegida. No lado sanitário, o receio dos especialistas se dá, pois acreditam que a população chinesa não foi vacinada adequadamente, principalmente da parcela que é considerada grupo de risco, como os idosos. Outro ponto de preocupação fica quanto ao surgimento de possíveis novas variantes.
No ponto de vista econômico, autoridades japonesas, taiwanesas e americanas já se pronunciaram sobre os riscos no aumento de casos. A flexibilização das medidas de restrição são positivas para que a China possa ter um crescimento econômico, já que com a dura política vigente desde 2020 as projeções são para um crescimento muito menor do que as expectativas do governo. Um exemplo foi a alta expressiva da Bolsa de Hong Kong após anúncios do governo chinês. Por outro lado, as incertezas em relação ao crescente número de contágios e a falta de clareza das autoridades chinesas já é uma questão que está atraindo as atenções.
Por fim, a Covid-19 continua no radar dos investidores, assim como diversos outros indicadores que já estão nos checklists do mercado financeiro. Apesar de já ter se passado praticamente três anos desde o surgimento do vírus, ele continua sendo ponto de preocupação e acompanhamento, tanto de autoridades sanitárias quanto instituições financeiras.
Nem mesmo o melhor roteirista de Hollywood poderia escrever uma história tão completa quanto foi a dessa Copa do Mundo. Depois de um mês de torneio, às 12h00, do dia 18 de dezembro de 2022, Argentina e França, Messi e Mbappé, entravam em campo para disputar – possivelmente – a melhor final de Copa do Mundo. E, por falar em história, esse jogo foi responsável por escrever mais um capítulo e corrigir uma das maiores injustiças do futebol: Lionel Messi finalmente venceu uma Copa do Mundo pela Argentina e se “Maradonizou” para a eternidade.
Para nós, brasileiros, que estávamos esperançosos que o Hexa finalmente viria, ficamos mais uma vez na decepção. Enquanto a esquadra comandada por Neymar e Tite caiu para a histórica geração croata, Messi e Mbappé, por estradas distintas, levaram suas seleções ao grande palco.
Quando se fala de futebol não podemos tratar como uma ciência exata, como diz a expressão: “é uma caixinha de surpresas”. Antes de um torneio dessa magnitude, todos gostam de palpitar e muitos se reúnem com amigos para fazer os famosos bolões. Mas o que muitas pessoas não contavam eram com as zebras da Copa. A desclassificação na fase de grupos da Alemanha, Bélgica e Uruguai, a queda precoce do Brasil e a histórica campanha de Marrocos, derrotando favoritas como Espanha e Portugal, com certeza surpreendeu todo mundo.
Nem mesmo a campeã Argentina ficou de fora dessa ao perder para a Arábia Saudita logo na primeira partida. “Where is Messi? Where is Messi?” foi o primeiro meme que surgiu na competição. Entretanto, “quem ri por último ri melhor”, deve ter dito Messi enquanto comemorava sua primeira Copa do Mundo.
E como nos bons clichês de filmes, ali se escrevia um belo roteiro. Os percalços no caminho de um time campeão, o herói que passa por um momento de desconfiança e logo chega à sua redenção.
Apesar de ser difícil assistir os nossos maiores rivais sendo campeões, ficou para nós a responsabilidade de contar para as futuras gerações sobre a coroação de um dos maiores jogadores da história. Além disso, ainda temos muito do que se orgulhar, até porque seguimos como a única seleção pentacampeã.
Um suspiro de alívio
Se a vitória é para se orgulhar, alentar pela seleção foi um alento para a população argentina. Eles que vivem o futebol de uma forma completamente diferente dos outros países, não estão tendo muito o que comemorar por lá. O tri mundial foi uma válvula de escape para a crise econômica tão dura para as pessoas que moram lá.
Lidando com uma profunda crise econômica, a Argentina tem uma das maiores inflações do mundo. Depois de um crescimento de 6,3% em outubro ante setembro, em novembro, em relação a outubro, a alta dos preços foi de 4,9%, enquanto na comparação anual a alta é de 92,4%. Alguns especialistas dizem acreditar que é possível a inflação atingir 100% nos próximos meses. Correndo atrás para domar a inflação, o banco central argentino tem se movimentado e a taxa de juros já está em 75% ao ano. Na última reunião, a autoridade reforçou que continuará observando a evolução da inflação. Neste cenário, mais de 35% da população está vivendo abaixo da linha da pobreza e o déficit fiscal do governo também continua sendo um problema.
Por fim, a “ressaca” das comemorações é dura, em meio a tanta dor e dificuldade que os cidadãos argentinos enfrentam no dia a dia, mas o título esperado por 36 anos é um suspiro e ar de esperança para dias melhores.
Deixamos aqui o nosso parabéns aos hermanos! Em 2026, tem mais.
Chegamos naquela época do ano na qual começamos a revisitar todas as promessas que fizemos no começo do ano, quais delas cumprimos e quais ficaram pelo caminho. Além disso, em meio às viagens e festas de fim de ano, acontecem as famosas retrospectivas. Portanto, antes de fazer promessas para 2023, e pular as sete ondinhas na virada do ano, vamos relembrar o que de mais importante aconteceu e influenciou o mercado financeiro em 2022.
De olho nos preços
Não tem como passar por 2022 sem falar da inflação. A maior vilã dos bancos centrais passou o ano todo aterrorizando investidores, famílias e políticos, seja no Brasil ou no exterior. Por aqui, vimos ao longo do ano vários fatores que mexeram com o IPCA, como, por exemplo, as questões dos combustíveis.
Decorrente da pandemia de Covid-19 e agravada pela guerra na Ucrânia, a alta de preços no Brasil, em 12 meses, chegou a ultrapassar 12% no início do ano. Apesar disso, poucos meses depois observamos algumas deflações mensais na divulgação do indicador. Mesmo com os números negativos em julho, agosto e setembro, o movimento se devia em grande parte ao reajuste no preço dos combustíveis, que tiveram cortes nos tributos estaduais e federais. Em novembro, o IPCA subiu 0,41%, registrando uma inflação acumulada em 12 meses de 5,90%. No ano, a taxa é de 5,13%. Como resposta, o Banco Central seguiu seu aperto monetário, que estava em 9,25% ao ano em janeiro e passou para 13,75% ao ano em agosto, estacionando neste patamar após 12 altas seguidas.
Nos EUA e Europa, o clima é de muita apreensão para tentar controlar a alta dos preços. Enquanto tentam conter a maior inflação em 40 anos, as autoridades monetárias também buscam encontrar o equilíbrio para evitarem uma recessão global de grande magnitude. Em novembro, a inflação nos EUA (CPI) subiu 0,1%, enquanto o acumulado em 12 meses chegou a 7,1%. Na Europa, os dados da Zona do Euro em novembro apresentaram baixa de 0,1% e, nos últimos 12 meses, recuou para 10,1%.
O combate no leste europeu
O ano mal havia começado e já estávamos nos deparando com o principal acontecimento deste ano. No dia 24 de fevereiro, o mundo foi surpreendido com a invasão das tropas russas no território ucraniano. Comandada pelo presidente Vladimir Putin, a ação chocou o planeta. Por muito tempo, as notícias sobre a guerra eram manchetes nos principais jornais digitais e impressos. Dez meses depois, o conflito ainda persiste e sem nenhuma perspectiva de resolução pacífica.
A guerra também foi um grande catalisador para o cenário econômico que encontramos atualmente. O confronto intensificou ainda mais a alta de preços, principalmente em energia e alimentos, e a corrida dos países para controlar esse problema. Dentre alguns fatores, podemos citar a alta no preço do barril de petróleo, por exemplo. A Rússia é uma das maiores produtoras da matéria-prima no mundo e as incertezas fizeram com que o preço do barril ultrapassasse US$ 100 após o início da guerra. É importante relembrar que a política de preços da Petrobras é de paridade internacional, portanto a alta internacional de preços nos afeta diretamente. Além disso, outro exemplo de que a guerra influenciou no processo inflacionário é o setor de alimentos. Ambos os países envolvidos neste conflito são grandes exportadores de trigo, ou seja, as instabilidades nos respectivos territórios e as sanções reduziram a oferta deste produto que é a base de muitos alimentos.
China x Covid-19 x EUA
Em 2022, dois anos depois do boom da pandemia, a Covid-19 continua sendo o principal ponto de atenção na China. A polêmica política de Covid-zero deu muito o que falar neste ano, já que ela é vista como uma das principais responsáveis pela desaceleração da economia chinesa.
Nos últimos meses, foi visto um cenário muito incomum por lá: multidões tomaram as ruas de algumas cidades na China para protestar, principalmente depois de um incêndio em um prédio que deixou vítimas. Segundo informações, pessoas morreram pois estavam trancadas dentro de seus apartamentos como medidas da Covid-zero. O governo chinês anunciou, recentemente, medidas de flexibilização, mas a abrupta mudança foi seguida de uma eclosão no número de casos. Neste sentido, segundo informações da agência de notícias RFI, um terço da população de Pequim pode estar contaminada pelo vírus, ou seja, 22 milhões de pessoas. Contudo, a falta de transparência do governo chinês quanto à real severidade da situação, dificulta qualquer perspectiva.
A crise do mercado imobiliário chinês também desencadeou uma série de manifestações pelo gigante asiático. Tendo como estopim o calote de US$ 300 bi da Evergrande, no ano passado, o setor imobiliário seguiu passando por dificuldades, e neste ano não foi diferente. Desta vez, sem ver um avanço na construção de suas residências, os proprietários decidiram parar de pagar os financiamentos. Nos últimos meses, contudo, o governo vem tentando estimular o setor que representa aproximadamente ⅓ do PIB chinês.
Além disso, a China vem travando a “guerra dos chips” com os EUA, mais um capítulo entre essas nações no cenário econômico. Os chips semicondutores ganharam mais notoriedade durante a pandemia, que com o aumento da procura de aparelhos tecnológicos e a confusão logística dificultaram a produção e manutenção de diversos produtos, como os carros, por exemplo.
Com as restrições impostas, os americanos visam não compartilhar suas tecnologias com os chineses, mesmo que Taiwan e Coreia do Sul comandem a fabricação dos semicondutores, estágios do processo de produção dependem de tecnologia dos Estados Unidos.
O enfrentamento tecnológico não foi a única notícia colocando China e EUA frente a frente. A visita de Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Estados Unidos, a Taiwan elevou as tensões entre os dois países e o receio de que os chineses pudessem iniciar um confronto com os taiwaneses, podendo levar a mais uma guerra. Depois da visita, o gigante país asiático iniciou exercícios militares perto de Taiwan que ocorrem até hoje.
Congelando…
As criptomoedas também foram destaques ao longo do ano e estiveram constantemente entre os principais assuntos do mercado. Infelizmente, no lado negativo. Conhecido como “Inverno Cripto”, o período foi marcado por uma queda muito forte deste modelo de ativo. Para se ter ideia, em janeiro, as criptomoedas somavam US$ 2,2 trilhões em valor de mercado, mas, por meados de abril, o “inverno” foi bem rigoroso, derrubando o valor em US$ 1 trilhão. Como consequência de toda a instabilidade do cenário internacional, os ativos de risco – isso inclui as criptomoedas – sofreram um forte impacto e isso afetou também o Bitcoin, a principal criptomoeda do mercado, que caiu pela metade.
As temperaturas já estavam negativas, mas quando ninguém esperava chegou uma avalanche de neve para dificultar ainda mais. Essa avalanche foi o crash da FTX, e tal acontecimento aumentou a desconfiança com que as pessoas analisam esses ativos. Além desta crise, os colapsos de Terra/Luna, Celsius, da Three Arrow Capital, entre outros, favorecem também para a queda livre dos criptos.
Em entrevista à Exame, André Portilho, Head de Digital Asset no BTG Pactual, falou que “a crise não teve a ver com cripto, mas com o uso da tecnologia pelos intermediários. Esse problema foi uma fraude, um ato criminoso, e isso não tem nada a ver com a tecnologia de cripto e os benefícios que pode trazer para diferentes indústrias”. “Dinheiro do cliente é dinheiro do cliente, não toca nele. Em 1980, isso [usar recursos de clientes] aconteceu muito com corretoras brasileiras, é impressionante como a história se repete”, finalizou Portilho.
O grande duelo do ano
Muito mais do que um Brasil x Argentina ou um Messi x Cristiano Ronaldo (sim, a Copa acabou, mas ainda seguimos lamentando que o Hexa não veio), o maior head-to-head do ano foi Lula x Jair Bolsonaro. E como não poderia ser diferente, o confronto deu o que falar e marcou o ano.
As eleições terminaram com a vitória de Lula, por uma margem mais apertada do que as pesquisas previam, porém, os grandes impactos vieram depois da confirmação dos resultados. Logo após, apoiadores do presidente Bolsonaro saíram às ruas para protestar contra os resultados, inclusive bloqueando rodovias por todo o Brasil.
A vitória de Lula trouxe incertezas para o mercado, com destaque para os nomes que seriam nomeados como os ministros – posteriormente com a confirmação de alguns de muita desconfiança do mercado – e a questão envolvendo a aprovação da PEC da Transição.
O eterno Rei do Futebol
Antes de acabar o ano, uma triste notícia: O Brasil se despede de Edson Arantes do Nascimento, Pelé, o Rei do Futebol. O maior jogador de futebol de todos os tempos. A nossa homenagem ao Rei, ao seu legado e tudo que sempre representará para nós brasileiros.
Por fim, 2022 foi um ano bastante conturbado e de muitos acontecimentos. A retrospectiva listou somente alguns dos principais fatos deste ano que ficará marcado na história. E que venha 2023!
Somos parceiros da Esfera BR, uma iniciativa independente e apartidária que fomenta o pensamento e o diálogo sobre o Brasil, um think tank que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva. Todas as opiniões aqui apresentadas são dos participantes do evento. O nosso posicionamento nesta iniciativa é o de ouvir todos os lados, neutro e não partidário.
O futuro presidente do banco de desenvolvimento apresentou 5 novos diretores do órgão em encontro com empresários associados da Esfera Brasil nesta quarta-feira (21).
Aloizio Mercadante, que assumirá a partir de 1º de janeiro de 2023 a presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), participou de encontro organizado pela Esfera Brasil nesta quarta (21), em São Paulo.
O ex-deputado, ex-senador e ex-ministro aproveitou o encontro para apresentar aos associados da Esfera, em primeira mão, 5 dos próximos 8 diretores do banco. E mais: quatro deles são ligados ao mercado financeiro. Os futuros integrantes da diretoria são Alexandre Abreu, ex-presidente do Banco do Brasil e do Banco Original, José Luis Gordon, economista e presidente da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), Luciana Costa, presidente no Brasil do banco francês de investimentos Natixis, Luiz Navarro, ex-ministro da CGU (Controladoria-Geral da União), e Natália Dias, CEO do Standard Bank Brasil.
Durante o almoço com os associados da Esfera, Mercadante anunciou ainda que os ex-ministros Tereza Campello e Nelson Barbosa serão titulares de diretorias no banco.
O presidente indicado do BNDES conversou com a Esfera Brasil sobre quais serão as prioridades do banco de desenvolvimento no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Leia a seguir:
Esfera Brasil – O que o senhor achou do encontro realizado pela Esfera com alguns empresários?
Aloizio Mercadante – É uma oportunidade muito importante do grupo Esfera para dialogar com empresários de vários setores, de empresas relevantes que conhecem o BNDES, que têm uma avaliação da situação do país. E esse tipo de diálogo, de troca de ideias, ajuda muito nesse processo que nós estamos de construir a nossa proposta do BNDES, para conhecer as nossas ideias e tenho certeza que terá um impacto bastante positivo. O Brasil precisa nesse momento de reconstrução e de esperança.
Esfera Brasil – O senhor disse que o BNDES não vai usar políticas do passado, usar recursos do Tesouro. É isso mesmo?
Mercadante – Nós tivemos um período histórico em que o BNDES representava mais ou menos 1,9%, 2% do Produto Interno Bruto, na sua carteira de crédito, no financiamento às empresas, com muitos exemplos exitosos. Por exemplo, todo o setor de papéis e celulose nasceu praticamente no BNDES, a Embraer– só 8 países do mundo produzem aviões e o Brasil produz graças ao apoio que o BNDES teve ao longo da história. No setor, por exemplo, de energia eólica, o Brasil conseguiu substituir importações, ser bastante competitivo, com grande apoio do BNDES.
Nós temos uma história de grandes realizações para impulsionar a industrialização, o desenvolvimento do Brasil. Antes, 43% da carteira do BNDES era indústria. Hoje é apenas 16%, então nós temos um desafio de reindustrialização. O BNDES já apoia em R$ 50 bilhões micro e pequenas empresas, cooperativas de crédito, para aumentar o volume de recursos. Nós temos o desafio da economia verde, da descarbonização, da inovação tecnológica, da indústria 4.0.
São muitos desafios para o Brasil voltar a ter uma indústria pujante, crescer aceleradamente, gerar emprego de qualidade, e o BNDES é um instrumento. Agora não tem espaço no Orçamento para financiar o BNDES, para os desafios das políticas públicas mais importantes, então o BNDES precisará ter uma boa gestão, aumentar a sua eficiência para poder ter mais recursos e buscar parcerias internacionais.
Hoje, por exemplo, nós temos 55 bilhões de euros da União Europeia para países do terceiro mundo para economia verde, para investimento verde, para sustentabilidade. E o Brasil pode ser o líder mundial com o presidente Lula, com a liderança que ele tem no planeta, com o que nós já fizemos na Amazônia e vamos voltar a fazer com o combate ao desmatamento para atrair esses financiamentos e aumentar a capacidade de financiamento do BNDES.
Nós tínhamos uma parceria engatilhada com a China de 10 bilhões de dólares que foi suspensa pelo isolamento do Brasil. Vamos restabelecer esse diálogo e, com isso, trazer mais recursos sem pressionar o Tesouro.
Nesse momento, o BNDES está encerrando o ciclo de transferir dinheiro para oTesouro. Ele recebeu muito, depois teve que transferir tudo – a última parcela é agora em 2023. Então nós queremos uma relação de equilíbrio com o Tesouro e buscar outras alternativas de financiamento.
Esfera Brasil – O senhor falou também que vai buscar o pagamento das dívidas dos países que ainda têm débitos com o BNDES.
Mercadante – Isso é muito importante, porque a Venezuela chegou a ser o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, o terceiro país que o Brasil mais tinha superávit, ou seja, o país que ele mais exportava e menos importava; a Venezuela é um grande produtor de petróleo e com isso tinha muita receita quando o preço do petróleo era alto e o Brasil começou a exportar serviço para lá. Com toda a crise da Venezuela e também com as agressões diplomáticas feitas pelo Brasil, eles suspenderam o pagamento. Mas tenho certeza que com diálogo eles retomarão o pagamento ao Brasil.
Nós vamos atrás desses países, a nossa prioridade não será financiar serviço no exterior. O Brasil hoje precisa concentrar o investimento e financiamento aqui, mas essa é uma possibilidade que todas as nações têm e que, eventualmente, se tiver um bom projeto, podemos avaliar.
Esfera Brasil – O BNDES irá privilegiar mais setores da indústria ou voltará àquela política antiga de apoiar mais grandes empresas?
Mercadante – Nós temos que olhar setores estratégicos. Por exemplo, a agricultura brasileira é muito competitiva. Estamos exportando este ano US$ 160 bilhões e é isso que tem gerado as reservas do Brasil que foram fundamentais para estabilização econômica do país; no entanto, nós estamos importando US$ 53 bilhões de insumos para agricultura, fertilizantes, sementes, biodefensivos. E nós exportamos a soja, mas não exportamos farelo de soja, óleo de soja, não processamos os alimentos, então a industrialização do entorno da agricultura vai ser uma prioridade, porque o Brasil é muito competitivo e nós podemos ajudar e avançar nesta direção.
Para dar um exemplo: a parte de energia solar fotovoltaica é um grande potencial. O BNDES já fez investimentos em energia eólica. O Brasil hoje substituiu importações, produz aerogeradores, tem total autonomia nesse setor, mas não fez o mesmo com a energia fotovoltaica.
Tudo que diz respeito à economia verde, à sustentabilidade, à descarbonização da economia, à tecnologia disruptiva, o BNDES pode ter mais ousadia porque é um banco de desenvolvimento, é para isso que ele existe. E aquilo que está estruturado no mercado, o mercado resolve. Nós vamos complementar e melhorar a qualidade do financiamento.
Esfera Brasil – E qual será a política em relação a concessões? Haverá mais envolvimento do setor privado?
Mercadante – As concessões são um patrimônio público administrado pelo setor privado. Toda estrada que o Estado pode transferir para a administração privada, é melhor você ter que pagar um pedágio baixo, um pedágio que seja eficiente e que a empresa faça os investimentos para dar mais segurança, melhorar a qualidade das estradas, do que deixar do jeito que estão. Por exemplo, o DNIT [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes], que é o órgão que cuida de quase 70.000 Km de estrada do governo federal, tem o menor orçamento desde que foi criado, não tem recurso para manutenção. Cai ponte, tem buraco na estrada e o Estado não tem condições para consertar.
A concessão é um modelo exitoso e bem-vindo, e o BNDES pode ajudar a desenhar projetos e, inclusive, inovar na forma de financiamento. Por exemplo, em vez de você exigir a garantia da empresa, você tem como garantia o próprio pedágio. Então está garantido o pagamento do financiamento. Com essas soluções criativas, nós podemos dar mais liquidez, mais recursos de capital de giro e mais investimento para o Brasil voltar a crescer e gerar emprego.
Esfera Brasil – O senhor apresentou aqui no encontro novos diretores e tem uma grande participação de mulheres. É uma nova fase do BNDES?
Mercadante – Temos quatro profissionais que vieram do mercado [financeiro] e três mulheres na diretoria. Temos a ex-ministra Tereza Campello, que tem uma larga experiência, é professora de uma cátedra especial na USP nessa área de combate à fome, de políticas sociais; a Luciana Costa, que é de um banco francês [o Natixis], que é o segundo maior conglomerado financeiro da Europa, com dois trilhões de euros — é o banco líder no mundo em economia verde, com balanço mais verde, mais eficiente na questão da redução do gás de efeito estufa, na descarbonização; e a Natália Dias tem 30 anos de sistema financeiro, muita experiência; era do Standard Bank Group, principal banco da África do Sul e da África, e tem muita experiência em estruturação no mercado de capitais.
Outro diretor será o Nelson Barbosa, ex-ministro do Planejamento, que também tem experiência na Fazenda e é um quadro exitoso. Temos também o Alexandre Abreu, que foi presidente do Banco do Brasil e também tem experiência em bancos privados, vivência de um banco grande e estruturado, o que ajuda na gestão do BNDES.
Também estará conosco o José Luis Gordon, que é o presidente atual da Embrapii [Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial], que é a Embrapa da indústria, toda focada em inovação. É uma instituição que eu criei quando estava no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. E, para concluir, o Luiz Navarro, que foi da Controladoria Geral da União, é membro da Academia Internacional de Combate à Corrupção, reconhecida pela ONU, e é um exemplo nessa área de compliance, talvez o quadro mais destacado que nós temos no Brasil.
Fonte: Esfera Brasil.
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Ao que tudo indica, o novo arranjo fiscal que se desenha para o Brasil reduz o espaço para cortes de juros no próximo ano. Hoje, seria necessária uma sinalização forte de austeridade para que esse quadro se revertesse. No curto prazo, entendemos que a decisão mais racional seja reduzir o risco das carteiras.
Ainda é possível corrigir o rumo. O novo governo pode anunciar um novo programa de austeridade fiscal, a própria PEC da Transição prevê o desenho de um novo arcabouço que substitua a regra do teto e um nome com credibilidade ainda pode ser apontado para o Ministério do Planejamento, o que melhoraria os preços de mercado rapidamente. Mas as ações mais recentes não estão apontando nessa direção.
Uma piora adicional dos preços talvez seja necessária para sensibilizar o novo governo e o próprio Congresso. Até lá, o mercado deverá esperar mais para se posicionar a favor de ativos de risco.
Na Portofino, deveremos optar, inicialmente, por um maior conservadorismo, deixando as carteiras mais leves, com um pouco mais de caixa e menor volatilidade…
A imprevisibilidade da estratégia fiscal e o risco de reversão de melhoras institucionais conquistadas em governos anteriores, nos fazem intensificar a postura mais conservadora adotada ao longo do ano.
Maiores alocações em ativos prefixados e de juro real continuarão a ser preteridos em função de uma maior alocação em ativos pós-fixados (CDI+). E, apesar de concordarmos com a atratividade dos atuais níveis de preço da bolsa brasileira, também manteremos posicionamentos mais conservadores nesta classe de ativos.
Importante deixar claro que esta é uma decisão temporária alinhada com a nossa avaliação conjuntural do cenário doméstico.
Estruturalmente e com um olhar de mais longo prazo, continuamos recomendando a disciplina de se manter a diversificação nas diversas classes de ativos em seus respectivos percentuais do patrimônio. Estes percentuais são determinados visando retorno e tolerância ao risco (perfil de investimentos) de cada carteira. Entre as diversas classes, mantêm-se necessárias aquelas que, a partir de hoje, taticamente faremos a redução do posicionamento.
Eduardo Castro é Chief Investment Officer na Portofino Multi Family Office e escritor das cartas estratégicas, “Ação e Reação”, “Causa e Efeito” e “Gestão Dinâmica”, para os clientes Portofino MFO. Clique aqui para ler e ouvir outras cartas e conteúdos.
Governos à esquerda do espectro político, são, na maioria das vezes, mais expansionistas fiscalmente quando comparados àqueles mais à direita. Esta constatação pode ser evidenciada comparando as políticas econômicas de governos republicanos e democratas nos Estados Unidos.
Não entraremos aqui no falacioso debate ideológico que supõe uma dicotomia entre responsabilidade social e responsabilidade fiscal. Na carta aberta escrita há duas semanas pelos economistas Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan, direcionada ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, eles afirmam que “a responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social, para já ou quanto antes.”
O fato é que, sejam indivíduos ou famílias, empresas ou governos, aumentos de despesas mandatoriamente precisam ser financiados por corte de outros gastos, aumentos de receitas ou ambos. Nos governos em específico, o ajuste dessa equação se dá habitualmente por mais impostos, por corte de gastos discricionários e subsídios, ou pelo aumento da dívida pública. Esta última alternativa, se realizada sem concomitante aumento de credibilidade e confiança por parte dos agentes econômicos, se dá geralmente acompanhada por juros mais altos e maior inflação.
Em seus últimos discursos, o caminho adotado pelo presidente eleito tem sido na direção de satanizar o chamado “mercado”. Isso, como se os indivíduos, empresas e investidores em geral que, na prática, financiam o endividamento público, fossem os culpados em última instância pela piora da percepção de risco e impacto negativo nos mercados de ações, juros e câmbio.
Em uma simples analogia, seria equivalente a um indivíduo que, em um determinado mês, perdesse o controle dos seus gastos e culpasse o banco por entrar no cheque especial. Gasta-se mais do que recebe, e com a alegação da legitimidade e urgência das despesas inesperadas, briga com o banco que, em última instância, permitiu que aquele aumento de gastos fosse possível.
O mercado é pragmático. Independentemente de preferências políticas ou ideológicas, ajusta os preços dos ativos conforme sua avaliação prospectiva dos riscos e retornos potenciais. Diferentemente do inferido pelo presidente eleito, não existe uma perversidade implícita nisso. Na carta citada acima, o trio de economistas escreveram que “a alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. É preciso que se entenda que os juros, o dólar e a Bolsa são o produto das ações de todos na economia, dentro e fora do Brasil, sobretudo do próprio governo. Muita gente séria e trabalhadora, presidente”.
Ao longo dos próximos dias teremos a definição dos termos da PEC da Transição que, em última instância, poderá aumentar as despesas do governo em até R$ 200 bilhões por ano, ao longo de todo o mandato do próximo presidente. Dada a composição do Congresso e da atuação da bancada do Centrão, acreditamos que tanto o montante quanto o prazo deverão ser sensivelmente revistos para baixo. Adicionalmente, a definição dos novos ministros da área econômica, Fazenda e Planejamento, ajudarão a definir o preço justo dos ativos brasileiros ao longo das próximas semanas. A conferir.
Um orçamento deficitário automaticamente impõe a necessidade de se buscar fontes de recursos para financiá-lo. Se a intenção do governo é reduzir sua dependência do mercado e o custo do endividamento público, certamente o caminho não parece ser aquele que o próximo governo sinaliza querer trilhar. E é exatamente isso que expressa a depreciação dos ativos brasileiros em um cenário de significativa melhora do ambiente externo.
Às vezes, parece ser mais fácil querer matar o mensageiro. O problema é que neste caso o mensageiro e financiador são a mesma pessoa.
Eduardo Castro é Chief Investment Officer na Portofino Multi Family Office e sempre escreve nesta carta de gestão, “Causa e Efeito”, a sua visão estratégica sobre os principais fatos dos mercados e os impactos em nossa estratégia.